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Fotos por Charles Naseh/CHIC
O segundo dia da Casa de Criadores começou com os desfiles dos participantes do Projeto Lab, dedicado a novos e pequenos estilistas. Deveria ser um espaço para uma maior experimentação, sem muitas preocupações comerciais, onde até alguns erros seriam considerados normais, tendo em vista a curta, senão iniciante carreira de alguns participantes.
Porém, o que ficou bem claro é que o que todo mundo quer é vender. Por mais que haja algo com toque mais conceitual, mais restrito a um público pequeno, o foco está nas vendas. Os dois grandes destaques do Projeto Lab, são os dois primeiros a se apresentar: Ianire Soraluze e André (Ph)ergom.
Ianire aposta na mistura de tecidos sintéticos com naturais. Logo nos primeiros look, um casaquinho plastificado com motivos florais vinha combinada com peças mais clássicas, sempre com perfume retro. Os volumes são o ponto chave da coleção, drapês, plissadaso, dobras e amarrações vêm em saias, calças, shorts, casacos e jaquetas. Os vestidos e saias também se destacam com volumes balonês ou quase bubbles – aquele com elástico em baixo.
André (Ph)ergom busca em Alfred Hitchcock inspiração para sua coleção. Todo universo do mestre do suspensa é traduzido para as cores neutras – marrom, bege, cinza, cru e preto – e formas clássicas tanto para as meninas, como para os meninos. As vezes até clássicos demais nos femininos, nas formas trapézios bem simples sem nada de mais e nas peças do universo masculino - tema já bem batido. Já o masculino agrada mais, com boas releituras de fraques, calças bem skinny em lurex, xadrez ou com estampas de chips de computadores.
Já no line-up oficial do evento, o coletivo P’tit é quem começa a desfilar, com coleção complicada, no começo com muitas sobreposições, misturando sintéticos com naturais, diversas referências, tecidos e estampas – característica que sempre marcou o trabalho do grupo. A intenção era a “desumanização associada à robótica”, mas que acabou ficando perdido no meio do desfile.
Agora com mais uma integrante, Carol Marioni – responsável pelo marketing e PR da marca – Anna O., Heloisa Faria e Leonardo Negrão investem em looks elaborados com bastante assimetrias, recortes e uma certa sofisticação. Usam o mesmo recurso da Fábia Berseck em sua coleção de inverno 2007 no SPFW. Primeiro apresentam as roupas com diversas camadas, e depois de formas mais simples, “desmontadas”. É nesse momento que fica claro a harmonia entre alguns looks, e o valor – aqui no sentido de qualidade - de algumas das peças.
Depois de uma tentativa não muito bem sucedida de investir no universo feminino, Ivan Aguilar volta focado no masculino, com boa coleção que mostra todo seu potencial. Formas simples, linhas puras, sem muitos rebuscamentos. Até os volumes que vão aparecendo ao longo do desfile são simples, em formas evasês, de uma forma bem geométrica, sem complicações
A inspiração vem das obras do artista plástico Raphael Samú, que tem algumas de suas obras estampas em peças desta coleção. A mais marcante é o casaco comprido de plástico. E já que toquei no assunto, o material foi muito bem usado por ivan. A pesquisa de matérias novos mostra que o estilista está apto e sintonizado com as exigências de mercado e disposto a levar seu estilo para frente. Na minha opinião, o melhor é o sobretudo de plástico branco, meio translúcido.
Mas não fica só ai, Ivan ainda usa tecidos clássicos de alfaiataria e bastante lã. Modelagem e acabamento perfeitos, tecidos de boas qualidades, e como o Ricardo Oliveros disse, o estilista se mostrou ligado nas principais tendências para a moda masculina: “terno de um botão, a mistura de alfaiataria e esporte, principalmente, no paletó-casaco, que tem acoplado na lapela, uma gola de punho, bem ao gosto das sobreposições que tiveram origem nos rappers americanos, e hoje é febre no mundo inteiro.”
Em seguida Fabiana Bauman mostra sua coleção toda em tons pastéis, onde as dobras, nervuras, pences e sobreposições ganham destaques. Nada de novo, porém nada de muito ruim. Fabiana investe em formas soltas, numa silhueta bem confortável. Uma coleção para a vida real, como diria as meninas da Oficina de Estilo, que também disseram que foi a melhor coordenação de cores do dia. Vestidos soltinhos em A, alguns com volumes balonês e bubbles, sempre sobre meia-calça opaca, que cobria até o sapato. O que vale lembrar é que Fabiana mantém seu estilo firme e bem característico, mas talvez um pouco mais de experimentação não fará mal.
Foi o próprio inverno o tema da coleção o ex-assistente de Walter Rodrigues, Weider Silveiro. Uma das melhores apresentações do dia conta com o mix entre o sintético e o natural, aqui o látex com a lã,. Tudo numa cartela de cores bem sóbria, com muito, cinza, preto, berinjela e azul. De cintura quase sempre marcada, os vestidos saias e até salopetes ganham volumes bubbles e balonês. Weider consegue unir com maestria sofisticação, requinte e o sexy que sempre marcou seu trabalho. Se a ênfase não está na cintura, está no colo ou busto, quem vem marcado por decotes e maxi-golas assimétricas, mostrando que Weider sabe modelar, costurar e conceber uma coleção com a sua cara.
Com apenas 18 anos, no segundo ano da faculdade, Briza é uma estilista totalmente consciente do que pode e o que não pode fazer. “Não quis uma coisa maior do que eu”, conta em entrevista no backstage. Toda inspirada no filme Metropolis, ou melhor, na personagem Maria que simboliza a passagem para a revolução industrial, é uma coleção que fala dos medos. O mesmo medo de Maria de ser engolida pela máquina, é o medo de Briza de ser engolida e consumida ao máximo pela indústria da moda. Mas mais do que medo, acho que é uma coleção sobre honestidade, como a própria estilista diz. Uma coleção honesta porque não vai além do que sua experiência permite.
Assim, a coleção vem com tecidos simples, abrindo com um vestido cinza meio metálico com as costas toda de fora. Passando para materiais mais simples como o moletom em calças bem oversizeds, alguns em cinza mescla bem escuro, remetendo a estética do filme. Tecidos mais finos, como o tafetá aparecem em vestidos com alças de suspensórios. Briza ainda experimenta trabalhar com volumes plissadas e bufantes, que acabam não funcionando muito. Mas ok, ainda é exatamente esta a hora para experimentar.
E como já era de se esperar cabe a Walério Araújo fehcar o dia com chave de ouro, talvez com uma pérola pendurada. É que a coleção foi chamada de Pérolas aos Porcos. Babados e mais babados, cintura bem marcada, vestidos amplos, tudo em preto e branco. O ápice são quando entram os looks com pérolas, que no começo aparecem só em alguns acessórios, como luvas ou nos saltas das sandálias. Mas depois, looks inteiros com aplicações de pérolas – falsas, diga-se de passagem –, com destaques para os look que além das pedras vinham com babados que davam um movimento incrível para as roupas.
O melhor de tudo é que a roupa de Walério é democrática. Veste desde de dragas e travas das mais montadas, até as mais glamuorosas mulheres que não têm medo de se “dress up”.
Mais sobre a casa de criadores no BlogView.
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