Impressões #3

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Fiquei pensando ontem a noite e no trânsito infernal que peguei hoje de manhã para vir para a redação do site sobre os desfiles internacionais. Quem leu os últimos post já deve saber que as duas principais vontades do inverno 2008 é aquela simplicidade austera, e naquela coisa meio natural (em tons/cores naturais principalmente) em clima de recessão.

É a moda meio que já prevendo tempos difíceis economicamente, com as eleições presidenciais americanas (que tem uma mulher concorrendo, daí tantos ternos e looks sóbrios), a baixa do dólar, toda a crise no oriente médio, a suscessão de Fidel e todos os outros problemas que estão acontecendo no mundo que qualquer uma que lê jornal já sabe, né?

Daí que uma coisa meio que tem a ver com a outra. Tanto a austeridade, a nova simplicidade e os outros looks com ar de pós-guerra e tudo mais, bebem da mesma fonte, não? A austeridade não estaria funcionando como uma proteção contra estes tempos difíceis? Não que o luxo não esteja lá, muito pelo contrário, mas está escondido, obscurecidos pelas formas rígidas e precisas, como que querendo dar segurança para quem veste tais roupas.

É aquela história que a moda não é só o espelho de uma sociedade, mas também o espelho de seus desejos. E se esse desejo for de proteção, de segurança, nada melhor do que looks bem estruturais, de formas precisas quase que como uma armadura.

Então os looks com cara de recessão pós-guerra seriam o espelho da sociedade atual e os mais austeros e quase minimalistas o espelho dos nossos desejos?

Impressões #2

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Vamos lá, o bla bla bla de sempre você já devem saber, né? Estou bem sem tempo com os trabalhos aqui no site do SPFW, daí a ausência do blog. Para quem sentiu falta, as análises de desfile que eu sempre fazia aqui das temporadas de moda agora estão lá no site. Não quis ficar reproduzindo aqui, porque achei que ia ser chato e nem muito ético – e para evitar confusões também.

Então, quem quiser ler é só ir lá no site em FNews, e lá, bem abaixo das imagens de destaque vai ter um scroll para selecionar a categoria. Basta selecionar “Paris”, ou “Milão”, “Londres” ou “Nova York” e todas as análises e notícias de tudo que aconteceu nas semanas de moda vão aparecer lá.

Isto posto, vamos ao post em si. Já disse várias vezes aqui que estou meio descrente das tendências. Na verdade estou bem em dúvida disso, e quem acompanha o blog, meio que já deve ter percebido isso. Não é mais como antes, tipo que uma única modelagem, uma única cor ou um único tema defina uma temporada inteira, fazendo quase que todas as coleções meio que homogêneas ou bebendo da mesma fonte (ok, eu sei que ainda bebem).

Hoje a variedade é muito maior. Se o comprimento é curto e comprido, se as modelagem é justa e solta, fica claro que não tem mais como definir estritamente o que é in e out – mesmo porque acho isso uma chatice. Hoje é muito mais um questão de marco tendências, ou vontades gerais que orientam o inconsciente coletivo do que ditaduras de tendências mesmo.

Enfim, esta temporada teve dois grandes movimentos, ou duas grandes vontades. A primeira eu falei no penúltimo post, que é aquela onde meio retro, mais voltado para o natural, em clima de recessão.

Outra que começou a aparecer em Nova York foi a tão falada nova simplicidade. Nada mais é do que uma versão atualizada do minimalismo dos anos 90, só que agora com alguns volumes exagerados e bem estruturados de forma localizados e algumas proporções exageradas.

cal_fw08_014-copy.jpgOs principais expoentes de tais tendências foram Narciso Rodrigues, com sua alfaiataria arquitetônica e bem estruturada, e Calvin Klein numa das melhores coleções de Francisco Costa na marca e da própria semana de NY. O foco também é a alfaiataria de linhas puras, agora com formas bem estruturadas quase que espelhando as formas do corpo feminino.

Isso continuou na London Fashion Week (LFW), adicionando o frescor dos novos estilistas e o começo de uma proporção pouco explorada até então: a verticalidade. Uma silhueta longelínea, reta, que sempre apontava para baixo, se estendendo até o chão, até o tornozelo ou até o meio da perna.

Não que isto nunca tivesse aparecido na moda, muito pelo contrário, mas que até então havia um certo receio nessas silhuetas e comprimentos por terem sido verdadeiros desastres de vendas.

O comprimento continuou forte na semana de Milão, principalmente naquela clima de roupa de recessão e naquela onde meio bucólica. Os poucos que optaram pela nova simplicidade também apostaram no comprimento, mas já o deixando em segundo plano.

jil.jpgFoi lá que esta simplicidade começou a ganhar um outro aspecto: menos minimalismo e mais austeridade. As decorações começavam a aparecer de forma mais explícita, mas ainda presa de certa forma, meio que num look severo e sóbrio.

Raf Simons, na Jil Sander, foi quem melhor explorou isso, com sua já habitual alfaiataria minimalista, mas agora dando volumes nas golas dos blazers e casacos. Marni e Bottega Veneta também mostraram looks que apontavam no mesmo sentido.

Tudo isso veio se confirmar como uma das principais vontades na semana de moda de Paris. Quem melhor ilustrou isso foi Nicolas Ghesquière na Balenciaga, com sua coleção que mixava todo seu próprio universo com a herança do mestre Cristobal Balenciaga.

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Looks Balenciaga e YSL

Stefano Pilati, na Yves Saint Laurent, em uma de suas melhores coleções para a marca também apostou nessa austeridade, dando um toque de futurismo para os looks de alfaiataria de corte preciso, angulares, no melhor estilo Rive Gauche.

Karl Lagerfeld na Chanel, ainda que de modo sútil também apostou em tudo isso, na austeridade, numa coleção onde o apela jovem foi diminuído pela austeridade que resultaram em looks mais maduros e adultos. O kaiser da moda também apostou nos comprimentos mais longos, não de forma literal, mas com caudas e algumas poucas saias ou vestidos mais compridos.

A Vuitton, por Marc Jacobs, apesar de bem parecida com sua coleção apresentada em NY, também decidiu dar mais atenção para as formas. Uma coleção mais escultural do que estampada, solta e fluída como a do verão 2008.

lanvin_08-copy.jpgA Lanvin, sob direção criativa de Alber Elbaz também mostrou uma coleção lúcida e realista sintetizando tudo isso. Usando pregas para trabalhar com geometria, o estilista consegue mixar bem peças usáveis, informação de moda, com as principais tendências da estação e sem perder o seu estilo, muito menos o da marca.

É como se toda aquela frivolidade, valores tradicionais, feminilidade e estampas do verão 2008 tivesse ficado para trás. Volta, um pouco modificada, aquela imagem de mulher decidida e forte. Ela vem com ternos bem cortados, com modelagem precisa, que valoriza suas formas, dando o mesmo destaque para as formas das roupas.

As decorações continuam, mas de forma mais localizadas, quase que presas. A geometria, formas e volumes mais estruturados ganham destaques, sob as formas mais soltas, e as estampas femininas da temporada passada.

Fotos por Marcio Madeira

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