Como a maioria já deve estar sabendo, começou hoje a 3a edição do Fashion Marketing, evento idealizado e organizado por Glória Kalil. Não, não vou fazer um resumão de tudo que aconteceu no dia, pois quase todos os outros sites já vão fazer isso – até eu mesmo, junto com o Matheus Evangelista, fizemos isso para o site do SPFW.
O que eu pretendo fazer aqui é discutir um pouco sobre uma coisa que o Tufi Duek, um dos palestrantes do dia de hoje, disse quase que no fim de sua palestra. Agora não me lembro exatamente da frase, mas era algo do tipo: Quando um estilista começa a fazer cadeira, mesa e um milhão de outras coisas, a identidade da marca se perde, e o estilista acaba perdendo sua relevância no quesito moda.
Mas será mesmo? Antes de tudo, convém falar algumas coisas. Tufi recentemente vendeu o Grupo TF (que possui as marcas Tufi Duek, Forum Tufi Duek, Forum e Triton) para o grupo AMC Têxti (o mesmo da Sommer e Colcci, entre outras). O motivo alegado para a venda, seria que Tufi, que desde 2003 acumula as funções de diretor criativo e a administrativo, estaria cansado da parte financeira e queria mais tempo para a criação e também para sua vida pessoal e família.
Assim, mês passado (03/2008) o Grupo TF passou 100% de suas ações para a AMC Têxtil, sendo que Tufi continua como diretor criativo das marcas, com contrato auto-renovável de 3 anos, e recebe participações nas vedas até 2025, afinal o nome das marcas é o seu nome. Só para constar, Tufi é o segundo estilista no mundo a conseguir um contrato de prazo ilimitado de ganho (esse que acabei de falar). O outro foi Calvin Klein.
Mas voltemos ao assunto inicial. Tufi disse que o papel de um estilista não é só criar, mas também manter-se antenado com tudo o que acontece em sua volta e principalmente no comércio. “Eu sempre fui um estilista do comércio”, afirmou ressaltando que o estilista deve se focar totalmente na elaboração de suas roupas para atender as demandas de seus consumidores.
Acontece que, na visão dele, quando um estilista começa a trabalhar em outras áreas, como desing por exemplo, esse foco no consumidor acaba sendo perdido, junto com a identidade da marca ou estilista.
Eu descordo quase que totalmente com Tufi. Lógico que existem caso que o estilista, na ânsia por ganhar mais dinheiro ou divulgar mais o seu nome, acaba se perdendo em trabalhos diversos, que as vezes não tem muito a ver mesmo com o estilo da marca.
Mas isto não é regra, muito menos maioria. São muitos os casos de estilistas que se aventuraram em outras áreas e deram super certo, carregando a identidade da marca para outras áreas. Christian Lacroix é o melhor caso, na minha opinião. O estilista, amante do barroco e rococó, já fez decoração de banheiro, de quarto de hotel, assentos de trem, uniforme de aeromoças e muito mais, de modo que podia-se ler facilmente em tudo isso o DNA do estilista.
A própria Marie Rucki – não que ela seja sempre correta – disse em uma de suas palestrar aqui que o trabalho de estilista abre muitas portas para diversas áreas, dando alguns outros exemplos, como Hedi Slimane, ex-diretor de criação da Dior Homme que agora está fazendo muitos trabalhos como fotógrafo.
Aqui no Brasil, só para citar alguns exemplos, tivemos Alexandre Herchcovitch que já fez jogo de cama e cozinha, Adriana Barra com móveis e Rita Wainer com seus abajures.
Enfim, muito ao contrário do que Tufi disse, acredito que quando um estilista faz trabalhos fora da área de moda e ainda assim consegue imprimir sua identidade, é que fica claro o quão bom ele é no que faz.
April 11th, 2008 at 1:53 am
Concordo com seu post. E lembrei de “A Raposa e as Uvas” que, além de uma fábula, é uma música do Reginaldo Rossi que vai ficar na minha cabeça pelas próximas quatro semanas. Putz.
April 12th, 2008 at 3:47 pm
Acredito que a produção da moda seja a união de duas frentes: o utilitário e o artístico. Isso pois, se a roupa tem por si mesma a existência fundamental de cobrir nossos corpos, nos proteger e oferecer a segurança e o conforto que precisamos para desenvolver nossas atividades das mais simples às mais especializadas, por outro lado existe a conexão da imagem externa às nossas particularidades, o apelo psicológico e emocional de sentir-se parte daquilo que nos cobre (ou das partes que descobrem) e, aquilo tão caro ao trabalho de moda, a expressão artística do indumentário sobre os relfexos do mundo, ou seja, a roupa como um registro de época e momento. Muitas vezes isso vai além, chegando a intervir no status quo ao propor, por meio da moda, novas visões e proporções ao mundo. Portanto, se por um lado se exige do criador o conhecimento técnico e formal (ergonomia, modelagem, corte), em contrapartida se exige o ato artístico, a sensibilidade latente combinada à capacidade de expressão. Assim converge o ato criativo num produto compatível às necessidades e desejos de consumo.
Daí que, seria outro o trabalho arquitetônico senão esse mesmo? Ou mais, não seria justamente esse o trabalho arquitetônio (digo em todas as suas vertentes) e a moda uma parcela desse universo? Ou seja, se a comunhão da técnica à estética resulta nos projetos que vão da colher ao edífício (quiçá à cidade, vide Lucio Costa e Niemeyer), revestindo todo o mundo habitado pela sociedade moderna, por que não seria essa mesma comunhão que expressa a criação da moda, que reveste o mundo habitado por cada um consigo mesmo?
Concordo plenamente com a opinião de que é quando o estilista atua em outras vertentes é que demonstra verdadeiramente sua magnitude. Aliás, para mim, não é o estilista que atua em diversar áreas, mas o artista-técnico que atua na moda, no design, na arquitetura como um todo.
Na verdade, muito me espanta Tufi Duek apresentar-se contrário a esse entendimento, pois foi este mesmo palestrante, que esse ano alardeia notícias fulminantes, que há duas estações colocou em sua passarela os traços de Niemeyer em uma das leituras mais bonitas que já vi da obra do centenário. Ora, se pode Tufi Duek interpretar e versar na moda sobre Niemeyer, acredito que seja justamente pelo fato de suas àreas estarem em sintonia, senão em harmonia.
Mais um vez, parebéns, Luigi, e obrigado por ter levantado essa questão com informações e opiniões tão elucidativas ao tema.
April 15th, 2008 at 3:14 pm
[...] que eu fiz um post semana passada falando sobre a questão de um estilista fazer trabalhos em outras áreas? Até falei de Christian Lacroix como exemplo que a Marie Rucki usou também sobre o mesmo assunto [...]
April 16th, 2008 at 11:51 am
tafu duek. tão absurda essa declaração. espero que agora ele tenha mais tempo pra se dedicar à criação, quem sabe venha por aí uma linha de mobiliário bala, hein-hein?
August 14th, 2008 at 11:40 am
[...] mais legal, é que a arte é super Gondry. Igaulzinha a estéticas de seus filmes e videoclipes. É bem aquilo que eu falei sobre os estilistas que acabam migrando para outras áreas. Que quando a pessoa é boa no que faz, consegue traduzir perfeitamente sua identidade e universo em [...]