Estava no cinema, esperando o filme começar quando uma amiga me disse que tinha uma pergunta de moda para me fazer. Mas antes preciso fazer uma pequena contextualização. Na quarta-feria (16/4) teve uma festa aqui em São Paulo organizada pela Nike e pela Nokia Trends, mas que no fim acabou ficando conhecida como “a festa da nike”.
Isto posto (já falei que adoro essa expressão), a pergunta da minha amiga era a seguinte: “Ir de Nike na festa da Nike é cafona?” Na hora disse que sim, meio que sem pensar, até dei um argumento dizendo que achava que era vestir a camisa demais, fazer propaganda gratuita ou coisa do tipo, sabe? Algo, “olhem estou de nike, na festa da nike! Olha como seu bacana”.
De fato é algo que eu mesmo não faria. Mas enfim, o que eu quero dizer aqui é que fiquei com tudo isso meio martelando na minha cabeça. Com certeza todo mundo que lê esse blog já deve ter ouvido dizer que hoje na moda pode tudo, que não existem mais regras. Eu mesmo já cheguei a escrever isso, e acho que sim, pode de tudo mesmo, e acho isso bem legal. Acho uma forma bem interessante de expressão pessoal através da roupa, do estilo e da própria moda de forma totalmente livre e subjetiva.
Sempre repudiei um pouco aquelas regrinhas chatas e ultrapassadas de etiqueta e “bom gosto”, do tipo não se usa sapato preto com calça jeans, ou regrinhas para se combinar cores, como não é bom usar preto com cores muito fortes, brilhantes. E se eu quiser usar e achar que fica legal? Quem disse que não fica? Estão me entendo?
Lógico que eu sei que existem certas coisas que acabam favorecendo diferentes tipos físicos e tudo mais. Mas de novo, quem disse que esse ou aquele é o jeito de favorecer o corpo/rosto/silhueta e afins de uma pessoa? Quem disse que se uma pessoa com perna/tornozelo grosso não pode usar ankle boots?
Não vou ser hipócrita. Eu mesmo não acho bonito isso, mas e se a pessoa achar, estiver bem com o jeito que está vestida?
É aí que eu quero chegar. Nesse paradoxo. Acontece que ao mesmo tempo que repudio essas regras eu, meio que inconscientemente, sempre acabo meio que recriminando alguns comportamentos do vestir e apoiando as infames regras. Quer um exemplo? Eu abomino, acho pavoroso usar meia branca com calça de cor, ou com tênis escuro (não vou nem falar no sapato, tá?). Quer mais? Pochetes! Ou as tão faladas patas-de-bode.
Afinal, se a gente gosta tanto da diversidade, se reclamamos tanto nas temporadas de moda quanto tudo parece uma simples variação sobre o mesmo tema – para não dizer que tudo parece igual –, porque acabamos sempre voltando para certas regras de estilo que no fundo não fazem nada além de homogeneizar o modo como as pessoas se vestem?
Eu sempre me lembro que uma reclamação em comum entre eu e uma outra amiga sobre aquele programa de TV, What Not To Wear, é que no final, todas as pessoas que passavam por lá, acabavam mais ou menos com o mesmo estilo, acabavam bem parecidas umas com as outras. Será que é isso mesmo que queremos, num nível meio subconsciente? Acredito que não. Afinal, como já disse aqui, sempre reclamamos quando as coisas na moda acabam ficando pasteurizadas demais, parecidas demais.
Mas será que a gente que vive mais próximo ou ligado ao meio da moda tem um olhar meio viciado para um ideal de beleza? Ou será que quando acabamos voltando para essas regras démodés, estamos deixando nosso gosto pessoal falar mais alto? Ou então, será que essa história de pode tudo não é um “pode tudo” literal? Deve-se sempre levar em consideração o que lhe cai melhor, o que te favorece mais e dentro desses limites é que pode tudo? Ou ainda, é um pouco disso tudo?
Eu lembrei muito daquele editorial da Pop Magazine, com a Beth Ditto, que foge totalmente do padrão de beleza – e de comportamento – que a maioria deseja e considera um ideal. Lá, Katie Grand, editora da revista e stylist da matéria, parece não levar muito em conta nenhuma regra para vestir a cantora. As roupas utilizadas nas fotos, nem sempre acabam favorecendo da melhor maneira o corpo rechonchudo de Ditto.
E mesmo assim a imagem que se tem no final não chega a ser feia. Pode ser diferente, isso não tem como negar, mas não é nada feia, muito pelo contrário. E a imagem e informação de moda é bem relevante. Sem contar em toda atualidade e realidade das fotos. Não é aquela moda fantasiosa – por mais que ainda tenha-se apelo ao imaginário –, e sim algo bem calcado na realidade, nas pessoas da vida real, principalmente por todas imperfeições estéticas das fotos.
April 22nd, 2008 at 12:48 pm
Oi Luigi
vou dividir os comentários
1- sobre nike e ir de nike, me irrita ver em desfiles, principalmente nos da MB Extra, um exército de moçoilas vestidas INTEIRAS com roupas da marca. nha, é implicância, mas acho over
2- acho que esses comentários sobre o que fica bem ou não está além da moda e sim para tentar a pessoa se sentir bem consigo mesma. um estilo excêntrico pode ser reflexo de uma personalidade forte, mas pessoas se escondem frustrações e nóias por trás das roupas. eu mesma, não uso salto porque me acho muito alta. acho que era isso que a Trinny e Susannah faziam no What Not To Wear inglês - e as pessoas nem ficavam parecidas. O que não acontece no americano, que é careta que só, concordo como q disse!
beijos!
April 22nd, 2008 at 2:33 pm
Nossa, cada dia melhor seus posts, viu? Vc tá numa fase Lipovetsky ou é impressão minha?
Enfim, Luigi, acho super bacana você abrir espaço para essa discussão do gosto. Ou do bom gosto, cada um vai interpretar de uma maneira.
O que não gosto na moda é essa mania que fashionistas têm, por exemplo, de usar as mesmas coisas. Nem tudo combina com todo mundo, óbvio, mas se você se sente bem isso é você que tem que saber, concorda? Só acho errado tachar uma pessoa de desatualizada porque ela não cai nos modismos propostos por uma pequena parcela de gente que se intitula hype.
Seu post é delicioso e propõe uma discussão sem fim, néam?
Eu discutiria horas sobre isso… mas nesse momento só digo uma coisa:
Parabéns por dizer o que pensa!
April 22nd, 2008 at 3:58 pm
Acho que no What Not To Wear eles realmente parecem uma variação só mudando o tipo físico. Acho que a razão disso é que os apresentadores são mestres das regras e não do estilo. Além de que americanos são conservadores, e eles usam um padrão forte para trabalho, o que o programa investe bastante. Concordo com você que nós dizemos que as regras ja não existem mas no fim das contas sempre criticamos tudo. Eu acredito que deve haver uma boa mistura entre as vontades, as regras e o bom senso.
April 24th, 2008 at 11:19 pm
Muito bom. Mas pergunto: você não considera falta de educação ir na festa da nike de adidas? No meu negócio aprendi com meus clientes uma máxima que trago comigo: “tá feliz, tá bem!” Não adianta vir com regras se a pessoa se sente linda e a roupa (calçado, whatever)a faz sorrir. Mas, um pouquinho de bom senso e respeito a certas convenções é tão chique…