Naquele post que falava de um texto que encontrei sobre o cenário econômico caótico dos fins dos anos 80 e da falta de novidade na moda, recebi um comentário super interessante da Georgina, no qual ela pergunta se não estávamos vivendo num eterno anos 90. E de fato, estamos vivendo um cenário bem parecido com aquele da década passada. Seja político, econômico e socialmente, pouquíssima coisa mudou desde os anos 90, ou melhor, para dizer que não mudou completamente, essas mudanças não foram assim tão impactantes ou significativas.
Foi nos anos 90 que surgiu a tão falada Geração X: “Jovens nascidos nas décadas de 60 e 70, que presenciavam o fim de vários paradigmas aceitos como “padrão” anteriormente. Tanto em termos político como culturais era uma geração que se via perdida. Sem saber para onde o mundo ia. E principalmente, para onde suas vidas iam. As mães começaram a sair de casa para ir trabalhar e construir uma carreira, suas famílias desabavam com a disseminação dos divórcios, o conceito do controle de natalidade (onde você tomava um comprimido para evitar de ter “problemas”), enfim, tudo isso fez uma confusão na cabeça dos jovens. Para que estar vivo? Por que eu nasci?”, como escreveu Ricardo do blog Untitled.
Além disso, tinha todo o movimento grunge, as camisas de flanela, o xadrez, as meias coloridas, a cena clubber, as cores fluo, materiais reluzentes, a depressão e os antidepressivos. Não precisa ser nenhum guru da moda, ou fashionista aficionado para perceber que estes mesmos valores estéticos vem sendo re-editados, re-trabalhados e re-apresentados atualmente, com pouquíssima variação – que na maior parte da vezes fica restrito a tecnicidade dos materiais.
Se paráramos para pensar, culturalmente, e mais ainda estéticamente, o que de realmente novo e inovador aconteceu desde a transição dos anos 80 para os 90? Pouquíssima coisa. E mesmo assim, todas as novidades nem se quer foram tão significativas assim. Alguns até podem argumentar que o começo dos anos 2000 foi marcado pela re-edição e contextualização do passado. Referências de épocas passadas, movimentos culturais e estéticos de outros tempos passaram a ser re-visitados e até misturados num grau jamais visto, para compor um visual “novo”. Mas viver, ou melhor, se inspirar no passado pode ser considerado algo novo de verdade? Tem até quem acredite que o novo hoje em dia não passe de uma ilusão, que não existe mais.
Na moda a gente bem sabe que a última grande inovação foi a mini-saia. Desde então as mudanças foram muito mais no sentido de proporções e silhueta do que numa peça ou modo de se vestir realmente novo. Não podemos esquecer também as inovações na tecnologia têxtil, mas estas estão longe de propor uma roupas ou silhueta/proporção nova de verdade.
Prada inverno 2007 x Prada inverno 1997
Mas voltemos aos anos 90. Pensando em moda, depois da transição do excesso maximalista dos anos 80 para o minimalismo da década de 90, o que realmente de novo veio na moda? Nos anos 2000 revistamos inúmeras décadas, o que é normal neste período de começo de século. Afinal demorou 20 anos no século passado para algo cultural e estaticamente novo aparecer, não é mesmo? Mas mesmo essas revisitações, o que difere de tudo que vimos nos anos 90?
Muito pouco. Até mesmo a Prada, considerada uma das marcas mais visionárias do planeta fashion não escapa disso. Basta dar uma olhada nas suas últimas coleções e comparar com as apresentadas em 1996 ou 1997. O Gustavo Garcez até já fez post sobre isso no FilmeFashion.
Enfim, o que acontece é que os anos 90 vem seguindo silenciosamente todo esse tempo e só agora começam a ganhar mais visibilidade. Tanto na música (são inúmeras as bandas que se inspiram em grupos de sucesso dos anos 90, como Nirvana), como no cinema (tem filme mais 90’s do que Juno) e também na moda, as referências, principalmente estética dos anos 90 estão cada vez mais explícitas.
Para muitos os anos 90, e todo o fundamento da Geração X, não faz mais sentido atualmente. Para estes, nossos jovens ao contrário dos da década de 90, já sabem o que querem da vida, aquela sensação de insegurança já não é tão forte como antes, o acesso a informação já foi – pelo menos em tese – totalmente democratizado, uma vez que todos temos acesso à elas, a globalização já aconteceu, e família já se dissolveu e ninguém parece se importar mais com isso.
Mas será que é tudo tão completo e acabado assim a ponto de não sentirmos mais necessidades de nada (talvez por isso a falta de inovação). Acredito que não e também acredito que a maioria dos jovens também acho que não – bom, pelo menos, aqueles jovens que já não nasceram com a vida ganha.
Realmente, os jovens já não precisam mais se preocupar sobre o que farão com suas vidas. Bem pelo contrário, são forçados a saberem desde de cedo o que querem. Não temos mais essa sensação de insegurança? E quanto a crise econômica que assola os EUA? E a desigualdade social que nunca foi tão grande e continua a crescer?
A informação realmente se democratizou, todo mundo (ou quase) tem acesso a ela. Chegamos ao ponto de até não ter mais que correr atrás dela, já que ela vem a até nós. Mas será que toda esse boom de informação, mas mais variadas mídias, está ajudando o indivíduo a atingir um ponto-de-vista próprio, pensar alem do senso comum e ter um posicionamento critico sobre os fatos, ou está apenas deixando todo mundo mais medíocre (no sentido de mediano)?
A globalização chegou e vimos que ela nem é tão positiva assim, pelo menos do jeito que está sendo administrada. E quando a dissolução da família, será que não estamos sentido falta daquela segurança e conforto familiar?
Enfim, mudanças aconteceram, menos no sentido estético, mas aconteceram. Todas as incertezas e dúvidas dos anos 90 foram resolvidas, os desafios conquistados e agora nos encontramos novamente num caminho sem rumo certo. Não sabemos o que nos espera no futuro, não sabemos se devemos continuar esse caminho e o que devemos fazer. Cenário que acaba nos pondo de volta quase no mesmo lugar em que os jovens nascidos nos anos 60 e 70, viveram nos anos 90.



May 18th, 2008 at 7:51 pm
sensacional luigi, ótimo texto. olha a coincidência, hoje estava buscando referências, e peguei o models manual de arthur elgort, que é de 1993, e olhando ele pensei justamente que quase nada mudou, sobretudo no design, que seria ainda moderno hoje.
May 18th, 2008 at 9:33 pm
Muito boooommmm! Muito boa a análise, estou aqui matutando ainda sobre ela ehehe
e aproveitando, qual a nova assessoria de imprensa do SPFW? Perdi meu cadastro no site e sempre uso fotos no meu emprego, não consigo mais entrar =(
bjs
May 19th, 2008 at 10:26 am
Alta identificação neste texto
May 19th, 2008 at 10:54 am
super interessante, luigi, muito o que pensar sobre o assunto
e achei uma mega sacada
May 21st, 2008 at 5:15 pm
Ótimo texto, pegada superbacana. Parabéns!
May 29th, 2008 at 12:28 am
Essa é a sensação…
mas acredito que o retorno aos 70 é uma necessidade de nossos tempos (há 20 anos aí com idas e vindas), mas não a escolha certa, pois essa foi uma década de extremo individualismo, originário do hedonismo exacerbado (e isso não sou eu que estou afirmando, são teóricos que disseram isso)…. apesar da tão propalada solidariedade entre as pessoas…
Já percebemos que isso não funcionou… talvez seja a razão para a tal onda verde. Na minha opinião, essa new wave não se atém simplesmenente ao pigmento =), ela é muuuito mais holística (e, não, mística ou não?!?!).
Bem, acho que isso dá pano para manga, short, calça, terno etc…..
bjsssss
July 22nd, 2008 at 12:26 am
[...] politico ou economicamente não houveram mudanças que fizeressem alguma diferença, como reafirmou Luigi do About Fashion. O que sobra? Viver num repeat globalizado? Reabraçar o minimalismo? Ou simplesmente aceitar que o [...]
October 20th, 2008 at 9:00 pm
adorei….
mais não encontrei o q estava preocurando!
Quiero saber qual á roupa que eles uasavam nos anos 90
bjuxxx vlw.