Estava eu lendo uma entrevista com Vivienne Westwood feita por Agyness Deyn na i-D de maio – aquela que ela está na capa – e fiquei um pouco surpreso com a seguinte fala de Mrs. Westwood:
“Eu acho que as pessoas devem parar de usar jeans (…). Eu realmente não iria comprar jeans. Acho que todo mundo fica igual usando eles. Eu não consigo usar jeans. Faz muito tempo desde que usei pela última vez, e me senti muito conservadora. Tive que tirá-los imediatamente”.
Que hoje jeans e camiseta é o uniforme de muita gente – principalmente dos brasileiros e americanos – a gente já sabia. Que eles, de fato, deixam todo mundo igual, ou pelo menos bem parecido, também não é novidade. Mas mesmo assim continuamos usando-os e adorando-os. Eu praticamente só uso jeans! Mas e ai, ficamos mesmo todos iguais de jeans? Será que não há um jeito de usá-los de forma diferente? Será que eles são mesmo uma peça conservadora?
Ontem estava lendo uma matéria no NY Times, sobre as duas visões sobre masculinidade existentes na moda hoje (super tem que ler) e vi o assunto lá de novo:
“Tendo decidido que o uniforme americano de jeans e camiseta se transformou numa depressiva roupa do establishment, Sr. Browne (de Thom Browne) decidiu reviver o terno, o costume que já foi definido como o establishment em si”. Guy Trebay para NY Times.
E não é que isso é bem verdade. A própria Vivienne Westwood, assim como muitos outros, já disse várias vezes que hoje não há mais como lutar contra o establishment. Quanto mais se luta contra ele, mas ele se fortalece. Todas as formas de rebeldia são assimiladas e usadas a seu favor.
Com o jeans não foi diferente. A peça, que desde o seu surgimento era destinada quase que totalmente a trabalhadores, começou a ser usadas por adolescentes e jovens como forma de protesto contra a conformidade nos anos 50. Na época, os jeans eram super mal vistos, e pessoas que os vestiam eram até proibidas entrar em alguns restaurantes, bares e teatros.
Já na década de 60 a peça passou a ser mais aceita, e nos anos 70 ganhou as passarelas, sendo Calvin Klein um dos primeiros estilistas a apostar no jeans. Hoje, não preciso nem falar, né? A peça está presente no guarda-roupa da maioria dos seres humanos, nas mais variadas modelagens, cores e lavagens.
Tanto que a peça virou praticamente carne de vaca. E hoje, um bom terno – mas bom mesmo, com corte contemporâneo, proporções e silhueta atualizada – acaba sendo uma opção bem mais descolada do que o bom e velho jeans.
Exemplo são os ternos – ok, bem esquisitos – de Thom Browne, que é um dos principais personagens da matéria do NY Times. Browne é um estilista que diverge opiniões. Ele ficou bem conhecido por alterar as proporções clássicas e tradicionais do terno, encurtando a barra das calças bem acima do tornozelo, encolhendo o blazer e deixando-os bem justos. Considerado por alguns como um visionário e questionador das tradições do guarda-roupa masculino ou como um estilista de extremo mal gosto.
Mas gostos a parte, não há como negar o excelente trabalho que o estilista faz alterando e propondo novas formas de se usar um terno. Suas experimentações com volumes e principalmente proporções são essenciais para a busca de uma nova forma de vestir o homem, assim como de ir acostumando o público e a mídia com mudanças que podem estar por vir.
E não é só Thom Browne que acredita que a alfaiataria e elementos tradicionais do guarda-roupa masculino são os meios mais eficazes para propor mudanças no modo como o homem se veste hoje em dia. Basta dar uma olhada nas últimas coleções de Viktor & Rolf, Burberry, Costume National, Prada e principalmente Junya Watanabe.
E vale ressaltar que todas essa busca por um novo vestir masculino está sendo feito de olho no passado. De olho em roupas que antes eram consideradas uma das mais tradicionais e conservadoras, mas que agora, no nosso atual contexto social, acaba sendo algo muito mais vanguardista e questionador do que o jeans e o próprio streetwear.
3 Comments
desculpa, mas o terno continua conservador e o símbolo da grande renúncia masculina para a moda. não existe nada de novo proposto pro esses estilistas, alguns como a P:rada beiram ao maneirismo.
fora que o jeans é democrático e o terno ultra elitista. quem no Brasil pode comprar um bom terno? Como sempre a moda masculina esbarrando nas questões elitistas e de gênero. Acredito que quando a moda masculina sair do armário poderemos enfim falar de moda para homens ou quem sabe, para seres humanos.
e to feliz que a gente vai se ver mointo na bienal. =)
Disso tudo acho válido a insatisfação e o questionamento proposto, mesmo que ainda sem saídas.
Bjssss
3 Trackbacks/Pingbacks
[...] mesmo tempo, o About Fashion fez post sobre a formalidade do jeans, com opinião de ninguém menos que Vivienne Westwood! Por conta dessa evidência toda a gente teve [...]
[...] igual. Na verdade, já andava desanimado com a moda masculina á tempos. Desde que escrevi aquele post sobre a alfaiataria x jeans, e principalmente depois que li o comentário que o Vitor Ângelo me deixou – que mudou minha [...]
[...] do assunto no blog dele e também recomendeu a leitura. Enfim, é mais ou menos aquilo que falei aqui, aqui e aqui, e também muito do que foi abordado naquela série de posts que o Vitor Angelo fez [...]
Post a Comment