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Santíssima Trindade Fashion

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Na segunda metade dos anos 80 o cenário econômico e criativo mundial não era muito diferente do que estamos vivendo hoje. Um severa crise econômica assolava o mundo inteiro, afetando também a criatividade em todas as áreas e principalmente na moda. Devido às dificuldades financeiras na década de 1980, os estilistas já bem estabelecidos não propunham grandes mudanças, nem ousavam muito. Os grandes nomes da moda passavam mais tempo revisitando seus próprios arquivos do que apresentando novidades. Um “risco calculado”, como gostariam de dizer os homens de negócios.

 

O marasmo mercadológico logo despertou uma vontade de mudança, uma busca por novos estilistas, alguns recém-saídos de escolas como a Central Saint Martin’s de Londres, a FIT de Nova York e também o Bunka College de Tóquio. Assim, aos poucos, a crise foi sendo superada a crise. Christian Lacroix teve papel fundamental no processo de evolução com o seu maximalismo, assim como os belgas, como Martin Margiela e Dries Van Noten, com o seus designs inovadores.

 

Apesar disso nenhuma grande ruptura, nenhuma grande inovação teria acontecido de fato sem a presença de três importantes figuras no meio da moda. Três estilistas japoneses que surpreenderam o mundo todo com seus conceitos totalmente novos e suas roupas inesperadas.

 

Por mais que Kenzo Takada e Hanaë Mori já tivessem chegado em Paris nos anos 70, firmado de vez a globalidade na moda, foram Issey Miyake, Rei Kawakubo e Yohji Yamamoto os responsáveis por mudara por completo a maneira como a moda era vista, analisada e entendida.

 

O sucesso dessa santíssima trindade fashion não foi imediato. Em seus primeiros desfiles, os japoneses foram vítimas de críticas severas. Mas que no fundo eram apenas olhares desacostumados aos ideais libertários, sem qualquer amarras com tabus e convenções do vestir ocidental. Após um solavanco inicial, a imprensa especializada e os grandes nomes da indústria perceberam que os conceitos e idéias sobre moda e vestuário propostos pelos japoneses configuravam uma mudança drástica, porém extremamente positiva.

 

Em parte, a inovação se deu pelo uso de técnicas e materiais tipicamente japoneses, como os tecidos de fibras naturais, tingimentos orgânicos, cores fracas e cortes que lembravam roupas antigas de trabalho. Logo no início de suas carreiras em Paris, os japoneses ficaram conhecidos pelo “pauperismo”, que no fundo eram roupas com aspecto pobre, tecidos furados e rasgados, sempre em preto ou tons escuros, com muitas sobreposições e amarrações que resultavam em formas amplas, longas, molengas e assimétricas.

 

Os estilistas orientais, assim, materializavam sua vontade contra os estilistas ocidentais, entregues ao luxo opulento, e criaram uma espécie de miséria luxuosa. Acima de tudo, os criadores vindos do Japão quebraram convenções e subverteram as regras no tabuleiro da moda.

 

Talvez por não terem um passado histórico tão travado com tradições e convenções do vestuário, os japoneses conseguem enxergar e trabalhar muito mais livremente com moda e com a própria roupa. Nunca antes uma passarela tinha abrigado calças de uma perna só, jaquetas com botões em locais inusitados e “visuais doentios”, como classificaram muitos opositores na época. Fato é que, através da união de conceitos múltiplos, do hi-low, do cruzamento entre oriente e ocidente, os japoneses mudaram para sempre o rumo da moda mundial.

 

Clique no link abaixo para ler mais sobre cada estilista.

 

 

Rei Kawakubo (Comme des Garçons)

 

Uma das principais estilistas do século XX, e também uma das mais questionadoras. Rei Kawakubo lançou sua marca, a Comme des Garçons, em 1973, fazendo seu primeiro desfile dois anos depois ainda em Tóquio. Seu debut em Paris, aconteceu em 1981, recebendo críticas nada favoráveis. Porém, no ano seguinte, sua segunda apresentação foi considerada “uma nova onda de beleza” e em 1983 fez ainda mais sucesso com o visual pauperismo, com roupas largas, furadas e desgastadas, estabelecendo assim novos parâmetros para a moda ocidental.

 

Com suas criações nada convencionas, quase totalmente desestruturadas, desconstruídas e amassadas, Kawakubo introduziu um novo conceito na moda, questionando as formas, volumes e silhuetas até então tidos como convencionais. Passou então a influenciar inúmeros estilistas, e, o mais impressionante de tudo, acabou conquistando uma clientela considerável, fruto da disseminação de seus ideais e princípios de moda.

 

Yohji Yamamoto

 

Yohiji Yamamoto se formou em moda pela Bunka College, em Tóquio, sua cidade natal, onde começou a fazer suas próprias roupas em 1970. Dois anos depois já lançava sua primeira marca, a Y’s e cinco anos mais tarde estava desfilando em Tóquio. Paris, porém só foi conhecer as criações deste incrível estilista em 1981.

 

Roupas “recém saídas da explosão de uma bomba atômica e lembrando o fim do mundo”. Foi assim que as primeiras críticas descreviam suas primeiras coleções apresentadas na capital francesa. Dois anos depois, junto com Rei Kawakubo, ganhou todo o reconhecimento que merecia com seus looks no estilo pauperismo (pobres), revolucionando o mundo da moda com uma nova estética, que unia moda, poesia e tradição cultural.

 

De um modo geral, seu trabalho foi sempre marcado por um grande estudo sobre cores, formas (vide suas desconstruções e superposição constantes) e funções da roupa em relação ao corpo humano. Sempre foi muito adepto da idéia de que o tecido e a roupa devem ser utilizados com o principal objetivo de valorizar o indivíduo e colocar sua personalidade em evidência.

 

Issey Miyake

 

Nascido em Hiroshima, em 1938, Issey Miyake estudou artes gráficas na Tema Art University e estilismo na Écola de la Chambre Syndicale de la Couture Parisienne. Antes de apresentar sua primeira coleção em 1972, em Nova York, trabalhou como assistente de Hubert Givenchy.

 

Indo contra os princípios de corte das roupas ocidentais, que visavam modelar o corpo tridimensionalmente, Miyake deu preferência a técnica japonesa, muito usada em quimonos, na qual o tecido é cortado no plano, sem eliminar as partes excedentes, que são aproveitadas como um prolongamento sugestivo de conforto e despojamento.

 

Ficou muito conhecido por suas constantes contestações sobre o vestir e também por suas pesquisas na área têxtil. Seu trabalho, muito marcado pelo uso de plissados, ganha relevância com o A-POC (A Piece of Cloth), desenvolvido com seu assistente Dai Fujiwara. O projeto consiste numa espécie de tubo de tecido, onde as peças de roupas são confeccionadas já no formato final, sem nenhuma costura, revolucionando a indústria têxtil. O processo todo dispensa mão-de-obra qualificada, fazendo com que o custo de produção também seja bem inferior, além de ser bem mais sustentável, já que tem pouquíssimo desperdício de material.

 

Texto publicado originalmente na Revista Catarina

Written by Luigi Torre

August 15th, 2008 at 10:00 am

3 Responses to 'Santíssima Trindade Fashion'

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  1. [...] Santíssima Trindade Fashion [...]

  2. [...] Há uns dois anos, nos idos tempos do Blogview, eu e a Biti tentamos muitas vezes combinar uma ida ao centro de São Paulo para fotografar os moradores de rua. O ensaio nunca rolou, mas até hoje eu compartilho com ela a visão de que, a despeito de todas as questões socioeconômicas, esse grupo é extremamente interessante do ponto de vista visual. Bom, eu nem sei se ainda a Biti acha isso mesmo, mas eu, pelo menos, continuo me pegando a reparar na forma como os mendigos vestem as roupas que eles conseguem juntar, como eles sobrepõem as peças e como eles são o exemplo mais triste e verdadeiro dessa estética do pauperismo (os estilistas japoneses em Paris conhecem bem esse papo). [...]

  3. E ai pessoal, simplesmente descobri a respeito do seu blog pelo Google, e pensei que esta sendo bastante informativo.Parabens pela boa vontade de nos maravilhar esse conteudo cheio de capricho.Ate a pr�xima aos compadres, nos vemos entao.BYE

    down jap

    6 Oct 11 at 4:02 pm

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