Verão 2009 – moda com realidade

2008 October 7
by Luigi Torre

Não sei quanto aos outros profissionais da área, mas é um tanto quanto estranho ficar falando de moda enquanto o mundo está vindo abaixo com uma das piores crises financeiras ever – tipo a Islândia, o país todo, pode quebrar se não conseguir um empréstimo! É difícil não se sentir a pessoa mais fútil do mundo falando de moda e situações como essa.

São em momentos como esses, ou quando ocorreu os atentados de 11 de setembro no meio da Semana de NY ou nos ataques do PCC aqui bem durante o SPFW, que a moda (e os eventos de moda) faz alguns questionamentos morais (um tanto quanto raros) à seu respeito.

Justamente por isso, muito mais do que as cores neutras, as formas sóbrias e austeras, é que, mais do que nunca, a moda para o verão 2009 vêm com uma imensa necessidade de realidade. Realidade de chegar ao consumidor final, de despertar desejo não só pela estética, mas também por conter alguma praticidade e funcionalidade.

Por isso que a Jil Sander empolgou tanto, enquanto a Prada desanimou. Porque as roupas apresentadas por Miuccia eram até que bem forte enquanto imagens de moda. Mas é difícil imaginar elas fora das passarelas ou de editoriais de moda. É difícil encontrar ali essa realidade que nosso tempo pede.

Já Raf Simons, para Jil Sander, consegue o mesmo poder de imagem com roupas extremamente práticas e funcionais para nossas necessidades contemporâneas. A escolha dos tecidos, sempre muito leves mesmo quando aparentam uma certa rigidez, o corte simples, porém preciso e atual, conseguem imprimir criatividade e até um certo frescor de forma simples, individual e direta. Daí vem essa realidade, as roupas tem forte apelo de vida real. Não precisam de muito esforço para chegar à um consumidor final, e nem por isso não conseguem espaço em editoriais de moda.

O mesmo pode-se dizer sobre as roupas de Alber Elbaz para Lanvin. Sim, são lindas e principalmente por isso despertam desejo. Mas boa parte desta beleza está no simples e autêntico trabalho de Elbaz, onde volumes aparecem de forma suave por simples dobras ou pregas de tecidos. Seus trabalhos não se sustentam pelo hype, ou por intelectualidades e extravagâncias fashion. E sim por essa simplicidade que dá realidade e deixam mulheres dispostas a desembolsar consideráveis quantias de dinheiro por uma simples peça da marca.

Por aí dá para entender também porque o verão 2009 da Balenciaga também não deve entrar para a listas dos top 5. Quer dizer, talvez até entre pelo incrível trabalho de pesquisa têxtil, com tecidos que refletem luz mudando de cor. Não há como negar o ótimo trabalho de Nicolas Ghesquière nesse sentido. Mas vocês imaginam a as roupas da Balenciaga fora daquele contexto? E mais ainda, já tentaram imaginar elas separadas do look do desfile, em um look de vida real?

Então, vale mais uma roupa com apelo para a vida real, para nosso cotidiano, do que apenas uma imagem forte que fica bem apenas nas passarelas e editoriais, ou então aquela coisa ultra luxuosa e elegante que se sai da passarela vai direto para um tapete vermelho e nada além. Para vender hoje – e é isso a maior preocupação dos diretores executivos das principais marcas do planeta fashion – é preciso tirar as roupas do pedestal. É preciso mostrar uma moda pé no chão – o que não significa perder a elegância e sofisticação, afinal ainda criar desejo ainda é fundamental. Mas mais do que isso, é preciso uma moda real que esteja de acordo com nossa vida e nosso tempo.

Fotos por Marcio Madeira

13 Responses leave one →
  1. 2008 October 7

    De fato, estava realmente a divagar sobre a questão hoje. Tenho um blog totalmente despretensioso no que se refere ao tratamento das informações, bem descontraído e de linguágem fácil e engraçada. Porém, não é fácil não se sentir fútil, realmente, diante do cenário mundial. No caso, podemos contribuir também não ficando de braços cruzados e utilizando nosso “poder” no campo da moda para fazer algo. Seu post me inspirou a escrever sobre o assunto. Parabéns pelo blog! Beijo
    http://www.lemousse.com.br/

  2. 2008 October 7

    super pertinente. e bem tipo “chegou a nossa hora”. =)

  3. 2008 October 8

    Muito interessante a abordagem…é muito difícil deixar a moda passar incólume pelo difícil cenário mundial!
    Beijocas,

  4. 2008 October 8

    No funnnndo, la no fundo mesmo, sempre acho tudo muito longe da nossa realidade hahahahaha. ela só se aproxima quando as lojas populares barateiam as tendências lá foram, adaptando para o mundo real. porque no brasil crise sempre foi dia-a-dia e a falta de $ sempre foi normal… por isso acho que a maioria das nossas marcas que estão fora do contexto economico do país… sei lá
    bjs

  5. 2008 October 8

    Ultimamente eu tenho pensando muito em questões como essa. Se sentir fútil é um peso, e também é sinônimo de estar mal informado – um pecado para a moda.

  6. 2008 October 8

    o problema é que o ‘povo da moda’ só disperta pra esse papel nesse momentos. :/

  7. 2008 December 26
    jussara permalink

    É, de agora em diante teremos espaço apenas para os medrosos, que deixam a moda banal, sem viço e presa ao básico chatonildo.
    E para os criadores, que reunem idéias, atualidade e pé no chão.
    O meu medo é que os pés no chão, ou seja os medrosos ganhem mais uma vez essa parada.

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