Voltei. Ontem fiquei meio off-internet quase o dia todo por conta de um trabalho que tive que entregar na faculdade. Mas sabe que no fim foi super útil? É que desde que terminou o Pense Moda, estou com vários assuntos na cabeça. Um deles até já saiu nos blogs do Jorge Wakabara, do Vitor Angelo e do Oliveros: a questão dos blogs.
Falou-se muito sobre a definição dos blogs, se eles precisam ser mesmo opinativos ou em 1a pessoa, se devem aceitar patrocínios e anunciantes, etc. Daí que no livro que tive que ler (“Pensando Contra os Fatos”, de Sylvia Moretzsohn) fala-se muito de como o jornalismo dito mainstream hoje perdeu algumas de suas características básica, que remontam ao período iluminista: levar conhecimento para que os indivíduos possam formar suas próprias opiniões e senso critico, para não ficarem presos ao senso comum.
Enfim, a autora levanta vários fatores que contribuíram para esse desvirtuamento do fazer jornalismo. Tem a questão da busca pela objetividade absoluta – que retira quase todo o caráter humano do jornalismo, ou seja a subjetividade -, a idéia de que os fatos falam por si só, a urgência pelo furo e pela velocidade absurda das rotinas e até a forma industrial que passou a reger a produção jornalísticas. Ah, sem contar nas várias formas de controle, sempre com algum comprometimento político ou comercial.
É nesse cenário que os blogs começam a fazer sucesso. Em parte por exercem o papel de um “quinto poder”. A autora até cita Ramonet sobre o assunto: “Um “quinto poder” cuja função seria denunciar o superpoder da mídia, dos grandes grupos midiáticos, cúmplices e difusores da globalização liberal”. Assim, os blogs – mas vale ressaltar que apenas aqueles que se dedicam a tal atividade com a devida consistência e comprometimento – surgem com essa função fiscalizadora, meio como observatórios da imprensa.
E gente, não é isso que a gente tem feito com discussões sobre cópia, toda a questão da Vogue – ainda que muito limitada e focada num caso específico?
Outra característica que a autora também cita é o do suprimento das insuficiência dos veículos mais tradicionais. Aquela velha história que o jornalista não tem tempo nem espaço para maiores reflexões ou uma análise mais contextualizadora dos fatos, encontra uma certa solução nos blogs. Num veículo onde a subjetividade, logo a opinião e interpretação, é o que mais se procura, é o espaço onde o jornalismo pode se aliar a subjetividade sem medo algum. A objetividade que busca tirar o caráter humano do fazer jornalismo é aqui colocada em segundo plano. O que importa é a opinião, a interpretação, análise e reflexão.
Obviamente nem tudo na blogosfera merece esse destaque. Enquanto existe blogs que se prezam a realmente explorarem assuntos, temas e reflexões que dificilmente encontram espaço na grande mídia, outros não são nada além de um varal de releases. Ou então, como o Jorge escreveu, utilizam o blog como uma vontade de ser mainstream, o que no fim acaba sendo uma reiteração de tudo aquilo que os veículos tradicionais já fazem.
Não é à toa que os blogs mais respeitados e que fazem mais sucesso são aqueles que apresentam um forte consistência de idéias e opiniões. São aqueles onde o senso critico de quem o escreve permite aquele exercício de suspensão do cotidiano. A própria Sylvia Moretzsohn diz isso no seu livro: “a condição para tornar-se uma referência no meio virtual ou para influenciar o rumo do noticiário não viria, como deveria ser óbvio, do conhecimento de que os seus autores gozam por razões exteriores à blogosfera, como políticos, comentadores, colunistas, etc, mas da competência e do empenho do indivíduos.”
Isso sem contar na participação mais ativa do leitor, uma da características fundamentais do blog e que mantém estreita relação com nossa sociedade pós-moderna. O leitor não quer mais se sentir passivo, mero receptor de informação. Ele quer também poder emitir sua opinião, dúvida, questionar e discutir determinado tema ou fato. E isso se torna cada vez mais possível no blogs.
Diferente daquele conceito de jornalismo participativo ou jornalismo cidadão, em que qualquer um pode ser considerado jornalista e divulgar informações sem critério algum, os comentários dos blogs se apresentam muito mais como uma vontade de discussão e necessidade de troca, do que vontade de ser jornalista. Hoje aquela posição de superioridade do jornalista, começa a incomodar um número crescente de leitores, há um desejo maior por uma proximidade.
Proximidade essa que se dá constantemente nos blogs. Através dos comentário, é possível gerar discussões e trocas de informações e interpretações que hoje se mostram tão necessárias diante de um mídia tradicional toda engessada por questões políticas e comerciais.
Por isso é tao importante que blogs se mostrem reticentes ou até mesmo contra algumas formas de patrocínios ou de publicidade em seus espaços. Hoje o que torna os blogs algo tão importante é justamente essa liberdade e espontaneidade.
Assim, ao invés de enxergar os blogs e outras formas similares de jornalismo na internet como uma ameaça ao dito jornalismo tradicional, é muito mais adequado enxergar esses fenômenos como complementares. Os jornais e revistas não vão deixar de existir, nem de exercer seu papel na divulgação de informação. Mas se neles não há espaço para essas trocas tão fundamentais para o conhecimento e esclarecimento, que os blogs possam continuar exercendo esse papel cada vez melhor e para um público cada vez maior.
8 Comments
adorei, prêmio osklen pra vc!
esse livro deve ser tudo! quero ler.
Luigi,
concordo com o Jorge, meu voto pro prêmio Osklen vai pra vc, o texto está excelente!
nem preciso dizer que meu post sobre os interlocutores tocava nesse assunto, que meu blog só exsitia porque as pessoas comentavam nele
Nossa, adorei! Também adoro posts que causam reflexão. Quando os faço, noto uma participação maior dos leitores – ainda bem! =*
Sim, outra questão: pra mim, a melhor característica da blogolândia é justamente a interatividade / troca de informações. A discussão é muito mais livre e interessante sem amarras editoriais.
mais um voto pro prêmio osklen.
porque nossos leitores não são bobinhos e sabem muito bem separar o que vale a pena do que não vale – super interessados na conversa boa.
aliás, eles sabem de verdade – mais que a gente, que fica discutindo e elocubrando.
HAHAHAH adorei esse premio osklen!!!
gostei muito do texto luigi. concordei com vaaaarias coisas. acho também que os melhores blogs não são só aqueles que não querem ser um “mainstream” online, mas também aqueles que são despretenciosos. aqueles que fazem o blog por necessidade de expressão, não querendo ser alguma coisa com ele (e se acabarem ganhando algo com isso, é apenas consequencia).
bjsss
Mais um voto Prêmio Osklen de um post de sucesso. A idéia de suspensão do cotidiano é incrível. Mais um livro na lista!
Uma excelente reflexão sobre blogs, principalmente num momento em que eles se popularizam cada vez mais.
Blog precisar ter conteúdo de bom gosto, polêmica,informação, sempre algo que o provoque o leitor a interagir.
Abraços
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[...] até falei um pouco sobre isso aqui. De como a rotina frenética do jornalismo, a busca constante pela objetividade acabou retirando [...]
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