só um mini desbafo/reflexão no meio de muita correria

2008 November 27
by Luigi Torre

Gente, desculpa de novo pela minha ausência, mas é que esse fim de ano está em especial corrido com os trabalhos de faculdade, mais todos os outros trabalhos. Mas então, estava eu indo entregar um desses de faculdade ontem – uma matéria sobre moda e economia, essa que postei aqui – quando uma colega me perguntou sobre o que era minha reportagem.

Expliquei para ela e ela ficou meio espantada, achou o assunto meio complexo e logo em seguida começou a reclamar dos títulos de moda existentes aqui no Brasil. Achei curioso que durante as discussões do Pense Moda a gente até chegou a comentar que fez muita falta alguém da revista Claudia na mesa de editores, fotógrafos e stylist. Afinal, é a revista de moda que mais vende, né?

Só que daí essa minha amiga veio reclamar justamente da revista Claudia. Eu devo confessar que não sei se tudo o que ela disse é verdade, porque faz muito tempo que não dou uma olhada na revista, mas depois disso vou ter que conferir. Enfim, ela reclamava que até lá os preços das peças divulgadas eram totalmente fora de realidade dela – e logo da grande maioria que tem coisas mais importantes para se preocupar do que gastar 700 reais numa peça de roupa.

Eu sei que o buraco é muito mais embaixo e não diz respeito só a questões editoriais. Envolve, entre outras coisas, aquele editorial que o Alcino escreveu para a Revista Moda da Folha de S. Paulo, falando dos preços absurdos que as marcas nacionais punham em suas roupas.

Mas daí que eu fiquei pensando… A gente fala tanto em levar informação de moda e cultura moda para um número maior de gente, mas no fundo é como se a indústria da moda – salvo as redes de lojas populares – não quisesse essa democratização. Eu sei que a moda por si só já é algo elitista e excludente, mas porque lá fora a gente consegue ter um alcance muito maior com informação de moda? Eu sei que o poder de compra é maior lá, mas será que não seria o caso de se fazer uma publicação voltada para o público classe C e D? Ou será que eles não são tão interessados por moda assim? Ou será que não são interessados por acharem que moda é coisa de gente rica? Porque eu tento a acreditar que moda é muito mais do que aquilo que a gente vê no SPFW e abastece uma mínima parcela da população, não?

15 Responses leave one →
  1. 2008 November 27

    acho que a Daniela Falcão saberá responder tudo isso com uma delicadeza…

  2. 2008 November 27

    Excelente post. Aliás, o Pense Moda tem o mérito de render textos excelentes na blogosfera.

  3. 2008 November 27
    jeferson ribeiro permalink

    Lu, vc sabe que ADORO essas discussões!

    Como difusores das informações, nós comunicadores temos que levar sim essa cultura de moda para a sociedade (e não para as massas! lembro da faculdade onde milhões de textos falavam das massas, m poucos mostravam como ser massa é ser anencéfalo. Temos que ser opinião pública, pois essa discute um problema e apresenta um julgamento sobre o mesmo)! Então assim deve ser a informação de moda, de acordo com o público, para que ele veja nas peças algo que possa usufruir em seu dia-a-dia. Alguns dirão que os altos preços mostrados dão ao consumidor da informação a transposição da necessidade para o desejo, que eles quererão aquelas peças, mesmo sabendo que é destoante para o seu padrão de vida. Este é um ponto de vista a ser respeitado, mas porque não utilizar os dois?

  4. 2008 November 28
    Débora Machado permalink

    Eu entendo bem o que você fala por que eu faço estágio na Nova, que é do lado da Claudia, tem vários produtores iguais e bla bla bla. Lá na Nova a diretora de redação pede sempre pra gente dar bem mais peças baratas do que absurdas de caras, mas é uma coisa BEM mais dificil do que quem tá por fora pode imaginar. Em primeiro lugar porque é bem mais complicado produzir em lojas populares (sem contar a C&A, Renner, Marisa e as grandes magazines populares), eles não estão acostumados com esse tipo de procedimento e tudo mais, mas aí tem o outro lado no qual a mesma diretora que quer peças baratas quer essas peças com um ótimo caimento, acabamento, qualidade e de impacto e sim, é MUITO dificil achar isso aqui em são paulo ainda. Se os produtores procurassem mais talvez? sim, ok, uma ou duas lojas, ainda falta muito disso. Vale lembrar também que mesmo a Claudia, por mais comercial que seja, também tem um editorial que não é de puto consumo, que quer vender mais um conceito, uma atitude e uma informação do que a peça em si…
    bom, falei falei e não falei muito né? haha
    apesar de tudo isso o que acaba acontecendo é que é bem mais fácil ir na G e achar uma peça incrivel de R$ 800, do que garimpar uma incrivel de R$ 50 né?

  5. 2008 November 29

    Tudo que você disse é muito válido. Não só na Cláudia, mas na Capricho que é uma revista para adolescentes, é possível encontrar uma blusa por mais de quinhentos reais! Agora eles estão dando uma diversificada, colocando coisas mais em conta, justamente pra atender a todos os gostos e bolsos. Eu vejo por aí uma tentativa de inclusão por parte da Renner e da C&A, toda vez que ando por lá encontro peças que estão na moda, diferentes e com preços ótimos. A qualidade pode não se comparar, mas ainda assim, é uma bela iniciativa.
    Beijos

  6. 2008 November 30

    Luigi, fiz um post-sequencia do seu lá no blog. =)
    Me deu vontade de continuar esse debate na revista…Vamos?

    beijos e ótima semana

  7. 2008 December 1

    A revista Estilo também consegue misturar muito bem peças caras com mais baratas, e melhor, consegue sair do eixo Rio/ SP com marcas de outros estados também.

    Nada contra peças caras, muitas valem cada centavo. A idéia de correr atrás de coisas baratas tem que entrar de vez na rotina de trabalho de quem produz.
    Igual ao que as mesmas produtoras/ editoras fazem no próprio guarda roupa.

  8. 2008 December 1

    sempre me incuquei com isso e acabo achando que jornalismo e produção de moda no brasil é tiro n’água – mas acho que existem veiculos que sao mais democraticos…

    mas acho que a revista de moda que mais vende é a Manequim!

    bjs

  9. 2008 December 1

    Quem der a “verdadeira” partida na democratização da moda vai se dar muito bem, vai começar a fazer negócios de moda.

    E menos caipirinha, samba e pão de queijo.

  10. 2008 December 2

    Lembra do Collin McDowell no Brasil? Estamos falando para 000,1% da população mundial. A maioria vive muito com um par de calças jeans e algumas camisetas. A questão de consumo é que o poder economico em poucas mãos dá uma impressão errada que vende-se muito. Vende-se muito para poucos…

  11. 2009 January 5
    Alexandre Lima permalink

    Feliz 2009 a todos!

    Eu acho que a moda já está muito democratizada, posso dizer isso pelo fato de conhecer bem o varejo de moda. Está enganado quem acha que a classe C (não vou falar da classe D, uma vez que o poder de consumo desta classe, infelizmente, é inexpressivo, conforme o IBGE) não entende de moda, muito pelo contrário, conhece e muito bem. A classe C é a maior classe social, com um poder unitário de compra baixo, mas devido ao universo desta classe, ela causa muito impacto na economia. Logo, a classe C circula por todos os cantos, até numa Daslu, nem que seja para ver o que há lá. Porém, como em qualquer coisa na vida, tem aqueles que conhecem do assunto e os que não conhecem.

    Hoje, as novelas levam informações de moda, os filmes, os seriados, os programas das tardes e noites, entre outros. Qualquer revista hoje tem um look, mostrando o certo e errado, o barato e o caro. O que acontece, é que tem muita gente que não se preocupa com a moda. Muita gente compra a roupa que gosta, não a roupa que dizem estar na moda. Estive em um debate entre Fabio Hering (Hering) e Vicente Donini (Marisol), e foi bem interessante o que eles disseram. O Fabio Hering disse que produto bom é o que vende. O Vicente Donini disse que antes se gastava muito dinheiro com viagens para ver tendências, e esquecia-se de “perguntar” ao cliente o que ele quer. Ambos disseram que hoje as pesquisas existem, mas que muitas informações são colidas nas ruas, aqui mesmo no Brasil. Diante disto, acredito que se um produto custa R$ 1.000,00, mas vende, é porque é bom, isto vale para o que custa R$ 50,00.

    Trabalhei com lojas de varejo na capital de São Paulo e com franquias do Brasil todo, e pude perceber que o cliente sabe o que quer, independente de ser moda ou não. Acontece que muitas vezes de “nós” querermos vender uma moda que não é moda por aqui, ainda. Vou tentar explicar. Lembro-me que a Hering, salvo engano, no ano de 2004, lançou duas camisetas em 50% algodão e 50% poliéster, se não me engano chamava-se Cotton Mix, com muito peeling (bolinhas), e vendeu para as franquias. Como era de se esperar, as vendas foram baixas. Mas a Hering não fez isto por acaso, como ela fabricava para a Abercrombie, Hollister, entre outras (não sei se ainda fabrica), e nas coleções destas marcas este produto era muito forte, além das pesquisas realizadas pelas estilistas quando viajaram para “fora”, indicarem esta tendência. Porém, aqui no Brasil, não havia a cultura do peeling nas roupas, muito pelo contrário, até hoje se compra aparelhos para extrair essas bolinhas. Mas, com o passar dos anos, as pessoas passaram a se acostumar com as bolinhas, em alguns produtos, claro, assim foi com os produtos envelhecidos, rasgados, etc.

    Existe uma C&A dentro do shopping Iguatemi de São Paulo, que é o berço do luxo (tudo bem que o Iguatemi tenta tirá-la de lá faz anos). Lembro-me que quando ia almoçar no Iguatemi, sempre dava uma volta no shopping e depois ia dar uma olhada na C&A, isso em 2005 e 2006, e as cores das coleções e vitrinas eram as mesmas que muitas lojas, assim como muitos produtos. Hoje existem lojas/marcas como C&A, Renner, Riachuelo, Zara, Hering, M.Oficer, Luigi Bertolli, Villa Romana, TNG, entre outras tantas, que trabalham com categorias de preços, para atingir as 3 principais classes.

    As revistas fazem o seu papel que é informar sobre tendência, conceito, visões diferentes, etc., e cabe ao leitor decidir se o que ele leu e viu é válido para ele.

    Portanto, hoje só não sabe o que está na moda quem não quer, quem não depende da moda, quem não gosta da moda, e há muita gente assim. O mesmo é valido para os preço, só paga mais caro quem quer, pois hoje há produtos similares pelo mesmo preço. Este final de ano eu vi uma calça Diesel aqui em Florianópolis por R$ 680,00 e uma CK por R$ 1.200,00, e a Diesel estava muito mais bonita e com valor percebido muito maior, e em outra loja, que nem lembro a marca, tinha uma calça por R$ 99,00, parecidíssima com a da CK, ou seja, o cliente pode procurar e escolher, e não ficar esperando que uma revista indique para ele onde comprar mais barato, até porque, a maioria dos produtos que saem em revistas são os famosos “boi de piranha”, ou seja, quando o cliente for a loja não terá a numeração, a cor, vai ouvir que vendeu muito, que acabou, ou só algumas lojas receberam, e por ai vai, mas no fundo era o “boi de piranha”. Conheço bem este filme.

    Aliás, o que é moda? É usar havaianas, calça jeans, bermuda ou saia? É usar calça xadrez com uma camisa manga curta estampada e um óculos que esconde 60% do rosto? É usar uma camiseta básica branca com uma calça jeans e um sapatenis? É usar sandálias Croc com calça social e camisa? Enfim, o grande barato hoje é que a moda está sendo feita por tribos e não mais por indivíduos, você escolhe a qual tribo quer pertencer, e hoje, para quem gosta de estar na moda, é muito fácil, não precisa depender só das revistas.

    Abraços,

  12. 2009 January 5

    Oi Alexandre,

    Em primeiro lugar, super obrigado pelo comentário. Concordo com algumas coisas que você disse e com outras nem tanto. Mas o que queria falar é que o problema maior (e o que me propus a discutir aqui) é o fato de as publicações de moda nacionais serem muito segmentadas para um público mais A e B. É como se a classe C e até mesmo D (por mais inexpressiva que seja) não existisse para o mercado editorial. E justamente por isso (eu acho) é que existe um repulsa tão grande pela moda em tais classes, como se tudo fosse mero seguimento de tendências ou coisa de gente “rica”, entende… Enfim adorei a discussão!

  13. 2009 January 5
    Alexandre Lima permalink

    Caro Luigi,

    Ainda bem que podemos discordar e concordar, não é mesmo?

    Entendi bem o que vc quis dizer, agora ficou mais claro para mim.

    Uma coisa é certa, as classes C e D sempre foram discriminadas, em qualquer segmento, e não sei se veremos isto mudar, pois este comportamento é histórico, infelizmente.

    A moda quando é lançada é elitizada, pois tem todo um glamour, e este glamour acaba afastando não só a classe C, mas pessoas que não se importam com isso. Eu vi isso de perto, e vc deve ver mais ainda. Conheci pessoas que não usavam a mesma peça duas vezes, o que acaba sendo fútil, na minha visão, mas existe. O acesso da classe C a moda, ocorre quando a moda chega nas redes mais populares. Exemplo: a bermuda xadrez chegou faz uns 4 meses, certo (me corrige se estiver muito errado), mas só em dezembro apareceu na C&A, olha que atraso! Porém, nem por isso deixou de ser consumida. Mas, a bermuda xadrez já estava por aqui, em algumas grifes, há um bom tempo. Mesmo que as revistas tivessem informado para o C, ele não teria como comprar, pois não possui recursos para frequentar lojas A e B (estou falando de Les Filos, Siberian, Crawford, Osklen, entre outras que possuem um preço médio bem alto). A Zara sempre lança suas coleções com antecedência, com um preço alto (as margens da Zara são maiores em países considerados, por eles, “tupiniquins”, pois na Europa o povo não paga o que a Zara gostaria que pagasse, pois a Zara por lá, é uma C&A por aqui.), e depois de duas semanas os preços caem. O classe A, ligado em moda, não espera os preços baixarem, logo, consomem a moda, digamos que “fresquinha”, e quando os preços caem, os outros consomem, inclusive outros classe A menos antenados. Talvez, os editoriais que, pensando desta forma, não estão dando a atenção devida as outras classes.

    Bom, o fato é que corroboro com a sua opinião, que é descomplicar. Eu escrevi corroborar de propósito. Não seria mais fácil ter escrito concordo?

    Quais benefícios as revistas e o mercado poderiam ter ao mudar esta linguagem?

    p.s: já vendi para todas as classes sociais, e posso garantir que o consumo da classe C é gigante, pois se não fosse, as lojas populares não teriam crescido tanto.

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