Casa de Criadores – mas há o que criar?
Hoje começa a 24a edição da Casa de Criadores, o evento idealizado e organizado por André Hidalgo que há mais de 10 anos vem apostando em alguns talentos em potencial para o mercado de moda no Brasil. Enfim, falo disso mais tarde, ou melhor amanhã, assim como dos desfiles que acontecem hoje no Shopping Frei Caneca.
O que quero falar aqui é que nas últimas edições do evento (acho nas últimas 3, não tenho certeza) os comentários vem quase sempre se repetindo: falta de acabamento, falhas técnicas das mais elementares, falta de amarração de idéias/conceito na apresentação, má edição e principalmente um abismo gigante entre o que é apresentado na passarela e o que de fato chega a um ponto de vende e isso se chegar. Ah, e também aquela velha questão que muito do que é apresentado lá, aparece sob uma vontade extrema de ser comercial, as vezes parecendo até forçado.
Acredito que de fato haja uma questão de identidade no evento. Começando pelo seu nome, “Casa de Criadores”. É que quando se fala em “criadores” (não que alguém ali seja um de fato, aliás alguém ainda é?) se espera algo mais criativo (dã!), algo que não seja tão comercial, mas que também mantenha uma certa relação com a realidade, e não seja apenas um sonho louco de um estilista em começo de carreira querendo mostrar potencial. Mas daí que quando o evento surgiu, a indústria da moda no Brasil era completamente embrionária, num estado totalmente diferente. Hoje o cenário mudou e muito, exigindo muito mais dos estilistas do que antes. Tanto que era perfeitamente aceitável uma coleção mais conceitual que não iria vender nunca, servindo apenas de vitrine. Hoje, isso não acontece mais. O próprio André Hidalgo agora exige que os participantes tenha pelo menos um ponto de venda da grife. Afinal, quando a roupa não chega às ruas o ciclo não se fecha, não é mesmo?
Acontece que hoje não é tão simples. É uma questão muito mais ampla que envolve até mesmo a imprensa de moda. Durante o Pense Moda a consultora da ABIT, Geni Ribeiro, disse que cabe aos jovens e novos profissionais a missão de romper o ciclo vicioso em que a moda se encontra. Ciclo vicioso onde todos os profissionais da área não fazem nada a não ser “criar desejos” pré-fabricados pelo mercado. Apresentar o mesmo como cara de novidade.
Daí as recorrentes reclamações que a indústria da moda nacional não evolui, está estagnada, presa a modelos internacionais um tanto quanto inadequados a nossa realidade e até mesmo ultrapassados para a atual situação de mundo. E nesse cenário a imprensa de moda que devia fazer seu papel de comunicar as pessoas problemas da indústria fica presa a concepções puramente mercadológicas. Ao invés de apontar falhas, sugerir reflexões, a imprensa de moda apenas divulga aquilo que o mercado deseja, estimula o leitor para as “novidades do momento”, os “hits da tempora”, o “hype”.
É como se todo o potencial de criatividade e comunicação que a moda carrega em si estivesse vazio de sentido, seguindo uma lógica irracional que tem como principal foco a indústria e não as pessoas. Ora, o principal objetivo do jornalismo não é informar as pessoas para que estas possam ter conhecimento suficiente para formar seu próprio senso crítico? Então porque o jornalismo de moda parece estar trabalhando para a indústria de moda? Ao invés de falar sobre a indústria, falamos para a indústria?
Como bem disse Vivian Whiteman, no blog Última Moda, “se a indústria de moda está trabalhando num modelo que sobrecarrega e destrói o ambiente, faz largo uso de mão-de-obra subempregada, estimula comportamentos compulsivos e doentios, faz falsas promessas, incentiva um tipo nocivo de competição e traz constante frustração às pessoas, não seria o caso de repensar esse modelo? Quem importa mais, as pessoas ou a indústria?”
Seria como que a estrutura mínima (seguindo uma análise semiótica) da espetacularização conceituada por Guy Debord. E mesmo que ele nunca tenho se referido ao termo “hype” como estrutura mínima de espetáculo – mesmo porque o termo só foi começar a ser usado nos anos 80 (mera coincidência?) – foi ele um dos primeiros e estudar os efeitos estéticos, politicos e psico-sociais deste fenômeno, espécie de arma pesada de ilusão das massas, que atua diretamente no imaginário.
E se pensarmos no hype como um vazio comunicacional, como uma despolitização aliada a uma estetização extrema, podemos fazer alguma relação com esse ciclo vicioso que a moda se encontra. O hype, enquanto explosão pontual de espetacularização da realidade, poderia sugerir, pela sua carga hiperbólica, um excesso de comunicação, quando, na verdade, nada comunica.
Quando Jorge Wakabara escreveu que os blogueiros querem se tornar jornalistas “mainstream”, então falam de Dior, Gucci, Prada, Marc Jacobs, ao invés de se preocuparem com assuntos que em geralmente a grande imprensa não aborda, pode ser entendido um pouco como reflexo dessa ausência de comunicação causada pelo hype.
No fundo todo mundo já sabe o que Marc Jacobs representa para o universo da moda, assim como as coleções da Prada. Porque, então, não buscar algo novo? Será que não há nada de novo mesmo?
Será que o sistema se tornou tão opressor que realmente tirou toda a criatividade da moda? Lembro de um texto que a Suzy Menkes escreveu para o jornal International Herald Tribune, no qual dizia que com os grandes conglomerados de luxo controlando as grandes marcas de moda, não haveria espaço para novos estilistas crescerem no mercado, com um trabalho realmente autoral.
Segundo Menkes, a era dos grandes designers durou 100 anos, começando com Paul Poiret e terminando com os mega talentos que apareceram nos anos 80. Mas já nesta década, a moda começa a se configurar de modo diferente, tanto que muitos dos talentos que afloraram nesta época hoje são conhecido, quando muito, por seus perfumes. É o caso de Thierry Mugler – inspiração de muitos estilistas na temporada de Milão –, Paco Rabanne e mais recentemente, a Rochas.
Hoje parece que a figura do estilista perdeu importância, sendo o nome da marca muito mais importante. Isso pode explicar um pouco o fato de mega marcas, verdadeiros impérios, estarem sempre em busca de designers não que criem roupas realmente inovadoras, mas que façam roupas que vendam. Os diretores desses impérios da moda acreditam que dar muito enfoque para um estilista pode ser prejudicial para a marca, o que só comprova que esta é mais importante, e tem mais visibilidade do que o estilista.
Fica claro aí a ausência do fator humano no processo. É mais a imagem (no caso da uma grife) que tem mais valor e importância do que o trabalho (humano) de criação e comunicação. É o hype, essa espetacularização de imagem que retira todo o potencial humano, logo de inovação e comunicação e fato, da moda.
Essa será a primeira Casa de criadores que farei cobertura.Enfim,estou com um pouco de receio.Pois justamente nos pontos que tu disse,organização das coleções,requinte no trabalho apresentado,inovação,qualidade e menos aparecimento.Espero com fé,sair de lá encantado,pelo menos o que vi no Ponto Zero,me deixou feliz.Enfim que venha a Casa de criadores e resgata a vontade que temos da palavra criação!
Então queria deixar minha pequena contribuição ao texto sobre essa valorização do Hype e a desvalorização dos estilistas, sinceramente acho que a culpa parte sim é das grandes empresas mas estando próximo ao mercado e amigos estilistas, tenho uma visão mais ampla no sentido que todos os estilistas cansaram dessa padronização de marcas e labels com produtos pré definidos, e alguns chegaram ao ponto de abrir mão de criar pra apenas vender mais e satisfazer seu empregador e ainda ganhar dinheiro, e até que ponto essa geração atual está influenciada pelo dinheiro e não pelo criar estilo!? e o que vi na Casa dos Criadores hoje vai contra essa padronização de estilo para vender mais, hoje vi os desfiles e todos os que vi tiveram a criação e a saída do obvio e do comercial, claro que nenhuma marca se sustenta apenas de conceitual, senão não existiriam as labels e grandes marcas, acho ainda válido a tentativa do estilista imprimir sua marca própria deixando de lado o valor econômico de cada peça criada para uma coleção, mas vivendo num mundo capitalista como nosso isso é provavelmente impossível acontecer.
Abraços
Fabio Allves
http://allaboutt.wordpress.com/
Interessantes questionamentos. Em especial no que tange à comunicação de moda. Esperemos para ver quem se habilitará a modificar a abordagem do setor.
Abs!