Casa de Criadores – 1o. dia
Quem abriu a 24a edição da Casa de Criadores foi André Phergom, da marca que leva seu nome. Em suas coleções passadas a música sempre teve papel muito forte, até mesmo quando não era inspiração declarada. Era sempre possível associar seu estilo com algum gênero musical, principalmente o rock e eletro, ainda mais no masculino, marcado por uma constante silhueta seca e cores escuras.
Para o inverno 2009 Phergom assumiu a música como referência olhando para o brit rock dos anos 80, principalmente para o vocalista do The Smiths, Morrissey. Mas parece que alguém andou lendo as críticas, já que segundo o próprio estilista “não quis fazer um rock clichê, quis fugir do óbvio”. E a maneira que encontrou para isso foi investir numa silhueta um pouco mais solta, sem aquele look batido de calça justa, jaqueta de couro e afins. Tudo bem que na passarela ainda vimos variações desses looks, vide os vários leggings combinados com camisas e ou blazers de proporções reduzidas. De qualquer forma, foi bom ver o estilista já começando a buscar novas formas e tentar sair da mesmice.
A coleção em si, não trazia grandes erros. O mix de alfaiataria com malharia pareceu uma boa saída, assim como alguns detalhes de couro, como no bom macacão masculino. Os tricôs cinzas, com algumas poucas taxas (principalmente o com gola ampla em moulage) também merecem destaque, mostrando que o estilista tem potencial, falta saber explorar e expandir seu universo.
Em seguida foi a fez das estreantes Claudia Mini, Bruna Santini e Juliana Roso, do coletivo No Hay Banda. O ponto de partida foi a canção Lili Marlene, que virou espécie de hino em plena II Guerra Mundial, cantado por ambos os eixos, para expressar a vontade de paz e de voltar para casa. Isso se traduziu num mix entre looks mais românticos com outros de referências militares, além do desafio de trabalhar com a escassez que marcou a moda no período da guerra.
Desafio este levado muito a sério em alguns casos, onde tecidos simples demais (para não dizer de baixa qualidade) ficavam um pouco desconexos da imagem de luxo decadente de filmes da década de 40, que serviram como referência. Ou então não se mostravam a melhor opção para algumas formas trabalhadas. Ainda sim, os looks em preto com bom trabalho de pregas e alguns daqueles com referências masculinas, como a calça de cintura alta com camiseta com espécie de suspensório integrado e paetizado, mostram-se como pontos altos da coleção, onde não ficam datado demais, e também mostram um bom mix de tecidos mais simples em peças mais formais e elegantes.
João Pimenta é sempre um dos desfiles mais esperados da noite. Na temporada passada, optou por um enfoque mais comercial, olhando para o universo do esporte numa de suas coleções mais vida real, mas que ainda sim mostrava um bom equilíbrio entre imagem de moda e realidade. Agora para o inverno 2009, João decide voltar a trabalhar com elementos femininos voltados para o masculino. Para isso ao invés de utilizar apenas acessórios ou tecidos, se focou nas formas de cintura e quadril que geralmente marcam as roupas femininas.
Daí vêm os casacos com penses que acentuam a cintura masculina, as saias ou anquinhas mais estruturadas na região do quadril, ou amarração com lacinhos nas costas de algumas peças e até um mini salto no sapato. Isso sem contar no uso de tecidos quase que restrito ao universo feminino, como musseline, chiffon e seda. Calças vem com quadril e coxas bem volumosas afunilando na perna, ou então em modelos dhoti um pouco mais extremados, como no bom macacão acinturado, com ziper frontal bem aparente. Já as partes de cima ficam levemente acinturadas graças as penses em casacos mais alongados que se armam na área do quadril ou então de camisetões em musseline branco com pregas e amarração nas costas, estilo roupa de hospital.
Com construção primorosa, acabamento perfeito e uma visão de alfaiataria e universo masculino privilegiada, a coleção de João pode até a ser comparada com as propostas e questionamentos já propostos por Thom Browne e Miuccia Prada (havia até uma certa semelhança estética em alguns dos looks), ainda que de modo bem pessoal, permitindo diversas interpretações. A questão que divergiu opiniões é se é realmente válido uma coleção com imagem tão forte e com tão pouco apelo para vida real. Afinal, se nem as mulheres gostam de realçar o quadril, porque os homens gostariam, não é?
A indicada para o Prêmio Moda Brasil, Ianire Soraluze também olhou para a Guerra em sua coleção. Mas agora pensando na questão da reconstrução após a destruição e como isso se relaciona com a moda. Daí lançou-se no desafio de se re-inventar numa coleção totalmente nova, com alguns elementos militares para contrapor com seu estilo mais suave e feminino – e bom apelo comercial, sem ficar forçado ou superficial. Pontos altos da coleção foram as peças em lã, tanto a pantalona e blazer desestruturado que abriram o desfile, como os tricôs acinturados, alguns com ombreiras suaves e principalmente o vestido decotado com cava mais angular no ombro.
O coletivo Tudi Cofusi parece se encontrar na velha armadilha dos jovens estilistas. Aquela coisa de mostrar um mega show na passarela, mas que acaba não comunicando nada e nem mostrando as boas peças que é possível encontrar em seus pontos de venda. Ainda assim, o inverno 2009 parece um pouco mais focado, mostrando propostas até que interessantes para passarelas (mas só lá) como o vestido sarongue masculino e ou vestido laranja de cobertor. Porém, o tema de fazer roupa com poucos recursos devido a crise, podia ter sido mais bem explorado, mixando soluções mais comerciais do que apenas mostrar habilidades estilísticas e de costura.
Essa mesma vontade de mostrar habilidades, somados a referências as vezes muito literais, é o que acaba tirando a espontaneidade da coleção de Rober Dognani. Que ele é talentoso, um bom costureiro e estilista, nós já sabemos – e suas clientes que não dispensam um bom vestido de festa também. O problema é que para passarela Rober parece tentar mostrar tudo que é capaz num mesmo look, drapeando, pregueando, decontando, tudo em excesso o que acaba parecendo forçado demais, quando não acaba prejudicando o próprio acabamento da peça.
O inverno 2009, inspirado em heroínas gregas que retiravam um seio para melhor vestir a armadura, aparece com apelo futurista nos bons vestidos curtos e justo pretos, com detalhes em couro, ou então nos mais simples apenas com ombreias arredondadas. O problema é quando Rober começa a carregar demais a mão em decorações, e deixar referências muito literais. Afinal, foram os mais simples, com detalhes pontuais que despertaram mais desejo.





