Turn Back Time – moda com realidade
Não sei quanto aos outros profissionais da área, mas é um tanto quanto estranho ficar falando de moda enquanto o mundo está vindo abaixo com uma das piores crises financeiras ever – tipo a Islândia, o país todo, pode quebrar se não conseguir um empréstimo! É difícil não se sentir a pessoa mais fútil do mundo falando de moda e situações como essa.
São em momentos como esses, ou quando ocorreu os atentados de 11 de setembro no meio da Semana de NY ou nos ataques do PCC aqui bem durante o SPFW, que a moda (e os eventos de moda) faz alguns questionamentos morais (um tanto quanto raros) à seu respeito.
Justamente por isso, muito mais do que as cores neutras, as formas sóbrias e austeras, é que, mais do que nunca, a moda para o verão 2009 vêm com uma imensa necessidade de realidade. Realidade de chegar ao consumidor final, de despertar desejo não só pela estética, mas também por conter alguma praticidade e funcionalidade.
Por isso que a Jil Sander empolgou tanto, enquanto a Prada desanimou. Porque as roupas apresentadas por Miuccia eram até que bem forte enquanto imagens de moda. Mas é difícil imaginar elas fora das passarelas ou de editoriais de moda. É difícil encontrar ali essa realidade que nosso tempo pede.
Já Raf Simons, para Jil Sander, consegue o mesmo poder de imagem com roupas extremamente práticas e funcionais para nossas necessidades contemporâneas. A escolha dos tecidos, sempre muito leves mesmo quando aparentam uma certa rigidez, o corte simples, porém preciso e atual, conseguem imprimir criatividade e até um certo frescor de forma simples, individual e direta. Daí vem essa realidade, as roupas tem forte apelo de vida real. Não precisam de muito esforço para chegar à um consumidor final, e nem por isso não conseguem espaço em editoriais de moda.
O mesmo pode-se dizer sobre as roupas de Alber Elbaz para Lanvin. Sim, são lindas e principalmente por isso despertam desejo. Mas boa parte desta beleza está no simples e autêntico trabalho de Elbaz, onde volumes aparecem de forma suave por simples dobras ou pregas de tecidos. Seus trabalhos não se sustentam pelo hype, ou por intelectualidades e extravagâncias fashion. E sim por essa simplicidade que dá realidade e deixam mulheres dispostas a desembolsar consideráveis quantias de dinheiro por uma simples peça da marca.
Por aí dá para entender também porque o verão 2009 da Balenciaga também não deve entrar para a listas dos top 5. Quer dizer, talvez até entre pelo incrível trabalho de pesquisa têxtil, com tecidos que refletem luz mudando de cor. Não há como negar o ótimo trabalho de Nicolas Ghesquière nesse sentido. Mas vocês imaginam a as roupas da Balenciaga fora daquele contexto? E mais ainda, já tentaram imaginar elas separadas do look do desfile, em um look de vida real?
Então, vale mais uma roupa com apelo para a vida real, para nosso cotidiano, do que apenas uma imagem forte que fica bem apenas nas passarelas e editoriais, ou então aquela coisa ultra luxuosa e elegante que se sai da passarela vai direto para um tapete vermelho e nada além. Para vender hoje – e é isso a maior preocupação dos diretores executivos das principais marcas do planeta fashion – é preciso tirar as roupas do pedestal. É preciso mostrar uma moda pé no chão – o que não significa perder a elegância e sofisticação, afinal ainda criar desejo ainda é fundamental. Mas mais do que isso, é preciso uma moda real que esteja de acordo com nossa vida e nosso tempo.
Fotos por Marcio Madeira
gostei bastante do seu texto, apesar de eu ter uma postura contrária. falei sobre ele no meu blog.