Vogue em crise?

2009 January 6
by Luigi Torre

Não sei se vocês chegaram a ver, mas no dia 1 saiu um artigo super interessante da Cathy Horynn no New York Times. É um daqueles que tem que ler. O título já é meio auto-explicativo sobre o conteúdo da matéria: What’s Wrong With Vogue (O que há de errado com a Vogue). Daí que Mrs. Horyn levanta uma série de fatores que contribuíram para o estado atual de uma das maiores e mais importantes publicações de moda ever: a Vogue America.

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Tudo começou com uma carta de uma leitora de San Diego. Dona Anna Wintour, que não é boba nem nada, publicou a reclamação da leitora na última edição de sua revista. Enfim, Kathryn Williams, a autora da carta, dizia com muita propriedade que “poderia fazer um calendário com as garotas das capas da revista, e provavelmente elas se repetiriam ano após ano”. E não é verdade? Quantas vezes a gente já viu a Carol Trentine, ou a Raquel Zimmerman ou então Gwyneth Paltrow na capa? E não precisamos nem ir muito longe, é só olharmos para irmã (ou seria filha?) brasileira da Vogue America. Quantas vezes Isabelli Fontana apareceu na capa da Vogue Brasil?

Por isso que eu super concordo com Kathryn Williams, que segundo Cathy Horyn conseguiu identificar com precisão o problema da Vogue: “a Vogue está ficando datada, estagnada, previsível”. E o que é mais chocante nisso é que está acontecendo apesar da participação de alguns dos melhores editores, fotógrafos e jornalistas do mercado.

Mas mesmo assim, a gente tem que reconhecer o potencial que Anna Wintour tem, né? Ela vem há 20 anos moldando a revista para refletir, como bem disse Cathy Horyn, mudanças no mundo e nas vidas das mulheres. De um jeito muito mais jornalístico do que de edição de moda, Mrs. Wintour vem dando tons bem reais para o conteúdo da revista, até mesmo em matérias meio fantasiosas como as da Grace Coddington e da Annie Leibovitz.

Quem imaginaria que um dia a Vogue ia conter matérias (e não apenas notinhas) relevantes sobre política e esportes. Não vamos esquecer que Anna Wintour chegou até a colocar uma primeira dama (que não tinha nada de semelhante com Jackie O, ou mais recentemente com Carla Bruni) como capa. Que revista de moda já fez ou tinha feito isso até então? Não estou querendo exaltar Mrs. Wintour, mesmo porque não sou lá muito fã dela, mas temos que reconhecer seu trabalho.

Mas também temos que reconhecer que faz muito tempo, mas muito mesmo (acho que desde os anos 90) que não vemos algo realmente chocante na Vogue America. Não é que não vemos nada de interessante ou bonito, bem pelo contrário, mas nada que seja muito incrível mesmo. E também não vemos nada disso na Vogue Paris, que pode ser mais provocadora, ou na Vogue Italia.

revistas

Mas isso é outro assunto. O problema é aqui é que a revista, além da previsibilidade e da repetição, está começando a perder seu potencial de conteúdo. Está ficando rasa. Antes a gente podia encontrar ótimos textos, sobre assuntos super interessantes na Vogue. Mas de um tempo para cá, parece que a vida de socialites que a gente nunca ouviu falar e que até nos questionamos se é mesmo importante se preocupar com as histórias delas, vem ganhando maior destaque. Um problema que é super recorrente aqui, né? As vezes a Vogue Brasil vem cheias dessas matérias que parecem ser um relato de amigas. Ou então com matérias que até poderiam ser interessantes, mas que aparecem de forma tão rasa que a gente tem que pensar duas vezes se aquilo realmente é importante ou vale um aprofundamento maior.

Eu só fui ver depois que li a matéria da Cathy Horyn, mas dá mesmo vergonha de ver como a revista está lidando com a recessão. Tudo bem que pode até ter aquilo de o público alvo não sofrer muito o impacto da crise, mas vamos com calma, né? A Vogue América tem uma circulação de 1,3 milhões de exemplares, não é possível que Anna Wintour – que dizem conhecer e prezar tanto pelos seus leitores – não levar em consideração que as pessoas vão sim passar por períodos de escassez de dinheiro e que isso vai influenciar a moda. Será que ninguém vê que se esta posição não mudar a revista vai deixar de ter esse apelo com a realidade e começará a perder a fidelidade de seus leitores?

Sem contar que a revista não muda sua cara e sei lá quantos anos, e parece desconsiderar por completo os impactos e importâncias de internet, das redes de relacionamentos e dos blogs e outras formas de conteúdo on-line.

Enfim, só achei importante falar do assunto aqui, já que dá pano para muita manga. Prometo que mais tarde, depois que botar a vida em ordem desse retorno das férias, continuo a discussão.

5 Responses leave one →
  1. 2009 January 6

    Sem falar nas capas horrorosas que as últimas edições tem, né? Essa capa mesmo, com a Keira K. tá pior do que as capas da revista Nova.
    Pra mim revistas de peso, principalmente Vogue, tem que prezar por capas e editoriais que gerem um certo brilho no olhar, sabe?

    Beijos.

  2. 2009 January 6
    Júlia permalink

    Eu acho que quando o assunto é moda, a vogue ainda é a melhor. Mas concordo que ficar falando da decoração do novo iate da mulher do magnata do petróleo não seja lá tão relevante pras nossas vidas… eu tô falando da vogue brasil. vou lá ler o artigo da Cathy Horynn. bjs a todos e feliz 2009

  3. 2009 January 7

    A Vogue America da anna Wintour está perdendo a importância,lembro bem nos anos 90 que a única revista que rivalizava era a Harper’s Bazaar com Liz Tilberis essa sim grande editora-chefe.eu prefiro e acompanho a Vogue Paris e Vogue Italia pra mim as melhores,muita gente que conheço reclama dessas atrizes que saem na Vogue America todo mês,a revista envelheceu até os editoriais sempre iguais com as modelos pulando podem reparar, elas sempre pulam.E em relação à Vogue Brasil também ando bastante decepcionado com a revista capa e conteúdo não me agradam mais e não sei ao certo, mas há rumores que a top Isabeli Fontana assinou um contrato de doze capas com Vogue e até agora ela já fez 8 vamos ter que esperar mais outras ,alguém aguenta?

  4. 2009 January 7

    Bom, pelo menos a Vogue americana publica as cartas dos leitores…

  5. 2009 January 7
    jeferson ribeiro permalink

    Minha falecida avó tinha uma expressão que me lembra o atual momento editorial da Vogue: “a conversa de pé de fogão chegou à sala”!

    O que as mulheres costumavam conversar, ou melhor, “tricotar”, quando eram donas do lar estampam as páginas de uma revista que deveria lhes mostrar algo surpreendente. O over do over do over é você parar para ler numa revista como a repórter se virou sem sua secretária do lar quando viajou em ocasião do casamento de sua amiga; como ela fez para sair de um vilarejo no meio do nada e chegar linda e sorridente no palácio no meio de alguma cidadezinha européia.

    Por favor né, tenhaasantapaciencia.com.br!

    Até acho algumas reportagens com antigas e decadentes socialites interessantes, apresentam um savoir faire do que se viveu e mostram um life style que não existe mais em cidades como o Rio de Janeiro.

    Tenho esse questionamento com todas as publicações na área de moda brasileira, sempre falta algo, não há a cultura do encantamento do leitor, para que ele tenha crise de borboletas no estômago ao ver um editorial realmente interessante, FANTASTIC! Mas não, temos hoje sim essa repetição desenfreada, como se nós leitores fossemos burros ou gostássemos de se fazer de “Kátia”.

    Beijos!!

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