Eu sempre fico um pouco em dúvida se escrevo ou não sobre os desfiles de alta-costura. É que eu acho que é um assunto muito fora da nossa realidade. Tudo bem, é lindo, tem aquela coisa de fantasia e sonho, mas agora, com a crise e tudo mais, acho que poderia ficar um pouco sem sentido, sabe?
E é realmente impressionante como as marcas que participam desse seleto grupo ainda conseguem se manter tão fortes. Os custos para produzir uma única peça, todinha feita à mão é absurdo. Imagina então um desfile todo? Tudo bem que esse mercado de luxo parece ser meio que imune aos efeitos da crise – mas nem tanto, afinal a Chanel chegou a demitir 200 funcionários no começo do ano. E com a expansão do mercados emergentes da Ásia, América do Sul, Oriente Médio e Rússia esse segmento vivenciou um considerável aumento no número de vendas.
Mas daí eu li esse post do Vitor Ângelo, conversei um pouco com ele e acabei mudando um pouco minha opinião. Lá ele falava que a moda faz muito mais sentido na alta-costura do que no prêt-à-porter. É que com a popularização das semanas de moda, os desfiles começaram a ter muito mais importância por seu valor de marketing e publicidade do que pelas roupas em si. E no fim das contas, muito mais que o luxo e glamour, a alta-costura é praticamente sobre uma roupa extremamente bem construída, com matérias e técnicas (manuais) únicas. Tanto que Martin Margiela faz alta-costura sem um tecido luxuoso se quer. Suas roupas são todas elaboradas a partir de materiais re-aproveitados, tanto de roupas vintage como de toalha de mesa, cortina, couro de um sofá ou cadeira.
Mas enfim, os desfiles de alta-costura são uma tentativa de trazer de volta o foco para roupa em si, para moda em seu estado puro, reduzindo influências externas e colocando uma lente de aumento na técnica, materiais e na visão e habilidade e um estilista. Lógico que ainda há o efeito de marketing, só que aqui ele se dá de forma mais sutil, meio que como conseqüência de toda excelência que deriva da roupa.
É o que vimos na Chanel, em sua coleção quase totalmente branca misturando referências gráficas mais modernas, com um certo romantismo suave. O ponto de partida para esse verão 2009 da marca foi uma simples folha de papel, o que explica os cortes retos e precisos, as texturas de algumas da roupa e toda sua delicadeza. Saias evasês ganhavam costuras e penses que davam ilusão de fendas ou sobreposições, jaquetas vinham mais ajustadas e estruturadas, com linhas puras, firmes, enquanto delicadas, ressaltando os ombros em formas quase pontudas e quadradas.
O foco é na alfaiataria, mas com toda a excelências que se espera de uma coleção de alta-costura. Com bordados bem posicionados, sempre forma suave, sem grandes exageros, aplicações de penas e pequenas jóias e paetês, sempre de modo delicado e harmônico. E sem aqueles cenários majestosos e imponentes, Karl Lagerfeld consegue por o foco totalmente nas roupas, destacando a coleção por todo sua excelência técnica e de qualidade, e não por um espetáculo midiático.
John Galliano fez coisa parecida na Christian Dior. O estilista continua ressaltando tudo aquilo por que a maison é conhecida, só que agora de uma forma bem mais contemporânea, sem aquele clima retro muito pesado. O romantismo é onipresente, tanto nas cores – de suaves tons de azul e rosa, que vem da referência de artistas holandeses como Van Dyck – como nas formas cheias de pregas, dobraduras e laços.
O foco é na alfaiataria que virou meio que marca registrada da casa, principalmente nas jaquetas, com construções mais complexas, formas mais rígidas e estruturadas, até mesmo quando parecem ser feitas de modo mais orgânico e livre. As saias, super amplas, com barras quase que estruturadas, podem até aparecer estranhas mas servem para destaque a as jaquetas acinturadas com volumes interessantes no busto ou gola ou então bons decotes sensuais que ressaltam o rosto. Os vestidos mais curtos, com volumes mais suaves também são bem interessantes, com um pouco mais de realidade mas ainda com toda aquela excelência quase que utópica da alta-costura.
Sem contar que é na alta-costura que os estilistas se vêem mais livres para explorar mais profundamente seu próprio universo. É lá que encontram uma maior liberdade para expressar toda sua criatividade em diversas formas, mesmo que seja pura fantasia. Jean Paul Gaultier é um que quase sempre faz isso, mas que para o verão 2009 optou por apostar pesado na sofisticação e glamour – lógico que de um jeito bem parisiense e sobre sua ótica bem peculiar. Daí os looks com referencias a sua alfaiataria impecável, com ombros bem estruturados e marcados, um leve clima anos 80 e aquela típica androgenia que o estilista tanto gosta.



6 Comments
Gostei. sempre fui apaixonado por alta costura e pela permissão criativa que ela é para os criadores, é da mesma linha do que a gente chama de Literatura contra literatura de massas, Cultura, contra cultura de massas, Arte contra entretenimento. e a temporada Paris foi muito boa, houve até atritos por causa da crise. mas eu realmente prefiro ver moda como arte do que moda como indústria. Prêt-à-porter é bem essa coisa mais chata. mesmo que haja boas influencias da ideia contrária, que no entanto continuam sendo criticadas pelo absurdo numero de críticos que acham que moda tem um valor por poder ir da passarela pra prateleira direto. blah… pra esse tipo de tédio tem a Hering…
quebra tudo, luigi!
tô amando muito teus últimos textos
Eu gosto muito de ver. Adorei o desfile da Chanel. Alguns looks de passarela são bem improváveis, mas ainda assism eu gosto da proposta por tras de cada um deles ; )
concordo com vc e com o vitor, alta-costura é uma parte do universo da moda que, apesar com as gandes mudanças no cenário mundial, ainda continua bem parecida com sua proposta inicial. apesar de ter perdido compradores, marcas, etc.
bjs
muito bom este texto!
a alta costura, vai sempre existir, independentemente do contexto de depressao economica.
e os modelos apresentados, sao fabulosos!
bjs
ótimo post!!!
penso que a alta-costura sempre será uma válvula de escape para a criatividade dos estilistas que deixam um pouco de lado o fator comercial do prét-a-porter. Também encaro como um pouco de “show” e conotação de arte.
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[...] espetacularização da moda) enfrentam uma desconstrução, é belo ver esse esforço da Vuitton em exaltar a beleza e importância do savoir-faire guardado nos ateliês e nas mãos dos artesãos. E essa idéia tem tudo a ver com a [...]
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