por uma moda mais democrática

CASA DE CRIADORES, Semana Vivier Design, Viver Design 4 Comments »

Um pouco antes do último SPFW começar uma amiga minha que ia cobrir o evento pela primeira vez me perguntou porque o evento era fechado. Porque, quando a moda se propõem a ser cada vez mais democrática, o evento é restrito a convidados. E no fundo é bem verdade.

 

Tudo bem, quem trabalha lá sabe que não é nada glamuroso como muita gente pensa. É trabalho em dobro e uma correria louca que deixa todo mundo acabado ao fim do evento. Por isso que – assim como eu – muita gente que trabalha lá apóia o evento ser fechado, porque assim facilita nosso trabalho, já que diminui cofusões. Sério, se já tem dias que a bienal fica um inferno para trabalhar, devido a multidão que vai para alguns desfiles, imagina se o evento for aberto.

 

É bem válido aquele texto que a Erika Palomino escreveu durante um Fashion Rio, reclamando do barulho num dos lounges e falando que enquanto os eventos de moda não começarem a se ver menos como festa e mais como algo profissional, a moda não vai andar para frente.

 

Ao mesmo tempo tem a questão de que grande parte – a maioria na verdade – da nossa sociedade é super carente em informação e cultura de moda. E aí eu me pergunto se ao abrir os desfiles para o público não estaríamos ajudando a difundir a informação e cultura de moda. Lógico que não adianta só mostrar um desfile, tudo tem que vir bem acompanhado de uma divulgação e cobertura da mídia bem didática e expressiva, não voltada para o próprio meio, mas para o público leigo.

 

Por isso que achei bem interessante a iniciativa da Casa de Criadores, em pareceria com a semana Viver Design em São Paulo, de apresentar desfiles abertos ao público.

 

Ainda sabe-se pouquíssimo sobre o evento, ou melhor, os eventos, porque a Semana Viver Design vai unir 3 eventos: Casa de Criadores, um projeto em pareceria com o núcleo Habitar Design para a criação de um museu de moda internacional, e a mostra re(produzir) em que estilistas já reconhecidos criarão um look acompanhado de sua modelagem em papel para exposição e distribuição em lugares acessíveis da cidade de SP.

 

Parece bem legal, né?

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Casa de Criadores #3

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Dia babado na Casa de Criadores, ou melhor, dia de babados. É que este volume foi o que mais apareceu nas coleções desfiladas no último dia de evento, que começou com uma realocação. O desfile das marca Gêmeas, que estava previsto para acontecer no heliponto do Shopping Frei Caneca, teve que ser transferido às pressas para a sala de desfile devido ao frio que chuva que fazia ontem (30/5).

 

 

Mas quando a coleção é boa, dificilmente a locação pode atrapalhar muito. Carolina e Isadora Krieger mostram uma coleção basicamente de vestidos, com shape meio anos 70, mas bem de leve. Variando entre mais estruturados como o os de tecido de toalha de mesa e ponto cruz e o navy/militar branco e mais soltos como os pretos com rendas e debruns dourados na barra. A única estampa de toda a coleção é um xadrez de amarelo e preto, que também são um dos poucos elementos que evocam aquela estética rocker, por qual a dupla ficou bem conhecida. O masculino vem mais discreto, com calças de alfaiataria mais justas e camisas, com destaque para a xadrez com laço na gola. Interessante notar o quanto as estilistas conseguem evoluir em termos técnicos e de estilo, sem perder sua identidade.

 

 

O mesmo já não acontece na marca Ash que fechou os desfiles. Conhecidos – e hypados – por suas estampas manuais em tons fluo, meio estilo grafite, a dupla parece presa na mesma fórmula. Apesar de uma coleção boa, com protesto fugere urbens, pedindo o retorno para a natureza, Guil Macedo e Roberto Leme não mostram muita evolução. Mudaram, sim, tentando mostrar peças, ainda que bem focadas no streetwear e com silhuetas descoladas, modelagens mais elaboradas que no fim acabaram não dando muito certo.

 

 

No meio desses dois teve o bom desfile Ianire Soraluze, com sua coleção feminina, cheia de babados, principalmente na barra das saias e vestidos que vinha ora bem curtinhos, ora longos até o chão. Ainda que as peças com muito volume, ou as pantalonas por exemplo não tivessem muito sucesso, a estilista acerta nos detalhes, como o matelassê no vestido branco ou no de brim e na cartela de cores bem feminina e alegre.

 

 

Migrando do Projeto Lab para o line-up oficial André Phergon se inspira no universo infantil, mostrando um discreta evolução, principalmente nos looks femininos, ao contrário de suas duas últimas coleções. Com boa mistura de estampas, recortes e sobreposições, o estilista mostra bom trabalho nos plissados e em algumas construções mais assimétricas. Todavia, são as peças menos despretensiosas que acabam chamando mais a atenção.

 

O último dia também contou com o desfile da marca Prints I Like, que teve nas estampas – e apenas nelas – seu ponto alto. A marca Purpure, de Weider Silveiro e Mark Geiner tentou misturar alta-cosutra com beachwear. O resultado foi maiôs complicados demais, com muitos excessos e que tentaram substituir as estampas por texturas – daí as misturas de materiais de diferentes tonalidades e texturas, como vinil, couro, cetim e jacquard de seda.

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Casa de Criadores #2

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O segundo dia da Casa de Criadores começou com a apresentação dos estilistas integrantes do Projeto Lab. Para quem nunca ouviu falar o projeto é um braço da Semana de Moda dedicado a estilista ainda mais novos, que estão realmente ingressando agora com suas marcas no mercado de moda.

 

Ao todo eram 6 participantes, do qual somente dois tiveram merecido destaque, mostrando um razoável preparo para já ingressar no mercado. O primeiro, totalmente novato, o recém-formado João Paulo Elias. A inspiração veio dos trabalhos de formas orgânicas do designer holandês Joris Laarman. Daí os vestidos com recortes curvilíneos, sobreposições de tecidos em tons semelhantes.

 

O outro destaque foi da dupla de estilistas já bem experientes da Der Metropol. Luicana Campos é hoje coordenadora de produto da Maria Garcia, além de ser a responsável por toda linha de acessórios da Huis Clô e Maria Garcia. Já Mário Franciso, foi assistente de estilo de Mareu Nitschke e hoje é professor do curso de moda da Universidade Senac.

 

Apresentações a parte, ficou bem claro o quanto a experiência faz diferença. A coleção veio toda inspirada no universo folk, com base nos lenhadores. Por isso as estampas digitais de madeiras, os tecidos parecendo xadrezes parecendo colchas de retalhos e a pele de vaca que aparecia pontual mente sobre algumas peças, mas principalmente nos ótimos tênis masculinos. A dupla também se destacou pelo excelente trabalho de modelagem e construções das roupas, como na jardineira com volume arredondado no quadril, ou as calças masculinas no estilo dohti, com coxa mais larga, ajustando do joelho para baixo. Peças sempre na base de algodão indo do moletom à malhas finas e texturizadas vem tanto em versões mais simples, fáceis de chegar no consumidor final, como mais trabalhadas, com recortes e construções mais complexas, com ajustes e deslocamento de penses e cavas.

 

 

Já no line-up oficial do evento, o coletivo P’tit vem com uma abordagem mais comercial e diluída, mas nem por isso perdendo todo aquele espírito de “contar história” tão presente em suas roupas. Com apresentação menos performática, continuam os looks com modelagem mais ousada, com muitas amarrações, moulage e formas nada convencionais e também o trabalho exclusivo de garimpo de materiais e peças vintages – afinal foi por isso que a marca ficou conhecida. É o caso do vestido feito de pedaços de várias camisolas antigas, ou do vestido de patch de renda, ou ainda do vestido paetizado, com recorte de tecido florido em modelagem e forma bem desestrurada.

 

Mas agora, ao mesmo tempo, Anna O, Heloísa Faria, Leonardo Negrão mostram peças mas simples, como os conjuntos de bermuda e top na mesma padronagem, ou nas combinações de peças um pouco mais elaboradas com outras mais comerciais.

 

Para seu verão 2009 Rober Dognani pensou em cores, cores fortes como amarelo, verde, roxo, vermelho e azul. Pensou também em encurtar – e muito – as barras de seus longos vestidos dramáticos da coleção passada. Continuam, porém, os looks feitos com técnica de moulage e todos aqueles exageros de babados, laços, pregas e maxi golas.

 

 

Na passarela Rober mostra emoção com seus volumes excêntricos que ganham mais vida com as cores vibrantes. Mas na vida real deixa um grande ponto de interrogação. As formas as vezes com muita sobre de tecidos proveniente da técnica de moulage acabam se tornando muito difíceis de serem digeridas pelo consumidor final. Sem contar que todo o excesso de detalhes como babados, fuxicos e pregas parecem desviar a atenção do estilista para o look geral, mostrando algumas pequenas falhas no quesito acabamento geral.

 

 

Fazendo a ponte-aérea, a carioca Athria Gomes olha para o carnaval dos anos 30 em sua coleção. Com vários blocos que passa pelo Pierrot nas estampas de losango verde e vermelho, pela melindrosa nos looks de franja e pelos piratas nos listrados. No fim parece que a fantasia falou mais alto que as roupas em si. Salvo os looks com ares mais navy, como a saia curta branca ou a pantalona de cintura alta com abotoaduras douradas e naquelas com uma leve pegada rock anos 50, a inspiração carnavalesca ganhou ares muito literal.

 

Quem fechou o desfile foi João Pimenta que nesta coleção resolveu deixar um pouco da teatralidade de seus desfiles de lado para se focar mais na roupa em si. Não que antes elas não merecessem atenção, mas devido ao styling bem dramático ficavam meio camufladas para o olhar do consumidor final. “Se o comercial não aparece, não há desejo pela roupa”, disse o estilista.

 

Mas não adianta – e graças a Deus -, João por mais que tente não consegue deixar de mostrar uma imagem forte e bem característica do seu homem.

 

O estilista também quis se focar bastante na questão da masculinidade, deixando toda a androgenia de suas coleções passadas, quase que totalmente restritas ao make, principalmente nos cabelos à la Amy Whinehouse e nos óculos mais feminios. Um certo clima retro, principalmente dos anos 70 permeia toda a coleção mas de forma nada literal e pouco clichê.

 

 

Na verdade foi o universo do esporte que falou mais alto. Pense em esportes britânicos, como o rugby, ou em jogos medievais e seus uniformes listrados, que a imagem é bem parecida. Os tecidos, como elanca, tricoline e o próprio algodão, também já indicavam a forte tendência do sportwear, até mesmo na boa alfaiataria do estilista. Esta por sinal, vem com muitos recortes, quase sempre em proporções mais reduzidas, principalmente nos blazeres. As peças mais oversized ficam por conta das calças de cintura alta e perna bem larga, ou meio boca de sino, bem anos 70. As camisetas e blusas mais focadas nos esportes também ganham proporções bem exageradas, com ombreiras e muitos sobreposições.

Bom ver como o estilista consegue limpar o visual, deixar tudo com cara mais diluída e mais comercial, sem perder sua identidade.

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Casa de Criadores #1

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Começou ontem (28/5) a 23a edição da Casa de Criadores, evento dedicado a promover e lançar novos talentos da moda brasileira, principalmente do eixo Rio-São Paulo. Reforçando seu caráter de vanguarda, o evento abre a temporada de moda brasileira para o verão 2009.

 

 

E quem deu o start nisso tudo – e um bom início - foi o estilista Gustavo Silvestre, bem conhecido pelo seu primoroso trabalho artesanal, principalmente com seus bordados, e também pela sua estamparia sempre muito rica e detalhada. Dessa vez os motivos, que num primeiro olhara parecem bem étnicos vieram dos desenhos das carrocerias de caminhões. Daí os vários looks de malha bem fininha e molenga com estampas em tons terrosos e pastéis que aparecem hora cobrindo a peça toda, hora de forma mais pontual.

 

Os bordados aparecem bem brilhantes, quase sempre sobrepondo as estampas de peças de silhueta bem ampla e formas soltas, bem confortáveis. Gustavo trabalha bastante – muito bem – com a questão da assimetria, com vestidos, saias e blusas mais estruturados, meio no estilo envelope, com sobreposição de camadas, mas sempre com comprimentos diferentes, fazendo um bom contraponto aos looks mais soltos.

 

Em seguida foi a vez a intervenção do coletivo Tuti Cofusi com suas roupas clubbers-anos 80-punk, com um pouco daquele fundamento de reciclagem, bem parecido com os trabalhos do estilista inglês Noki. Uma apresentação bem experimental, com cara de intervenção mesmo, meio que contando um historinha com climas diferentes.

 

Attention Deaf Disorder (ADD) foi a terceira marca a se apresentar. Depois de pular uma temporada volta sem grandes novidades. Misturando estampas étnicas com estilo californiano a grife continua focada no comercial, mostrando um desfile sem grandes novidades, apenas com boas combinações de bermuda, calça, camiseta, hoodies e também uma linha de alfaiataria. Tudo bem simples, pronto para ir direto para o consumidor final. Afinal, quando os acessórios – como a bolsa de rede ou o relógio com pulseira de pano – são os destaques da coleção é porque algo não está certo.

 

 

Na Diva, a estilista Andréa Ribeiro teve as emoções como tema. Ok, emoções e Elis Regina. O resultado foi tão amplo quanto o tema. Começando com vestidos fluídos estampados, fazendo referência ao glamour dos anos 70, mas com um bom toque de brasilidade. Porém, pecavam pelo mal acabamento, modelagem um pouco esquisita e tecidos de má qualidade. Depois entram os looks mais estruturados, com cintura marcada, numa coisa anos 50 encontra os 70. É aí que Andréa se saia melhor, principalmente nos looks em marinho e vermelho como vestido curto azul marinho de linho de seda com lacinhos nos botões frontais, ou para o vermelho no mesmo estilo. Os looks com brocados acabaram ficando datados de demais, talvez pelo styling que ao invés de ajudar, só atrapalhou. E por fim, looks com estampas de lenços, que junto com as correntes, foi outra inspiração bem forte da estilista.

 

 

Nesta edição o estilista Marcelu Ferraz decidiu estrear no masculino, deixando toda sua linha feminina de fora da passarela. O resultado foi bem ok. O tema era basicamente o Rio de Janeiro. E quando se pensa em Rio, o que se vem em mente? Ternos brancos, roupas frescas, linho, algodão fininho, estampas praianas de coqueiros, flores e papagaios, samba, bossa nova, e meninos lindos com corpos perfeitos. Clichê? Pois é, mas foi bem isso que o estilista e também host da The Week apresentou em seu desfile.

 

 

E para fechar o primeiro dia da Casa de Criadores com chave de ouro – mesmo que esta não tenha brilhado tanto como de costume –, o tão aguardado Walério Araújo. O tema? “É algo que eu tenho muita vontade de fazer, e que um dia eu ainda vou fazer: alta-cosutra”, como o próprio estilista disse no back-stage. Daí todo o luxo e sofistiação que já se podia ver a pleno vapor no primeiro look de Bruna Sotini que abriu o desfile num vestido longo de paetês dourado, todo em camadas.

 

Daí em diante foi um vestido mais exuberante que o outro. Balonê, com franja, com aplicações de flores, brilhantes, rendas, pregas, babados, saias godês bem volumosas e sempre com acessórios de cabeça dignos de um Philip Treacy. Looks que exalavam luxo e glamour e referências à Gaultier, Lanvin, Dior, Galliano e McQueen. Mas espera aí. Como a música dos Tings Tings mesmo dizia: That’s not my name!

 

 

E com o batidão à la funk carioca desta música, os mesmo vestidos voltam a passarela agora com versões mais curtas e também mais no estilo Walério que estamos acostumados. É como se a alta-costura virasse “baixa-costura”, nas palavras do estilista.

 

O vestido cheio de camadas de Bruna, vira um sexy micro vestido paetizado soltinho. O longo rendado com cristais bordados de Claudia Leite, um sexy vestido curto, bem justo. As saiais godês volumosas, são deixadas de lado, revelando hot-pants cheias de sensualidade. O vestido com top e barra de plumas, vira um micro – e bem micro mesmo – vestido de penas. O rosa longo, cheio de tiras, lembrando muito a última coleção da Lanvin, acaba parecendo um Hervé Léger por Walério Araújo. E por fim, o longo com flores aplicadas na ampla saia godê, um tubinho bem justo de um ombro só com uma flor no ombro, bem Sex and The City.

 

Fotos Agência Fotosite

 

 

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Mais de Casa de Criadores

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Eu tinha decidido que não ia repetir o que costumava escrever sempre que acontece mais uma edição da Casa de Criadores. Acontece que, por coincidência ou não, duas pessoas vieram me perguntar hoje o que era o evento, qual sua importância, se era uma coisa bem comercial, ou bem alternativa. Daí que resolvi escrever sim, porque é informação extra não tão ruim assim, né?

 

 

A Casa de Criadores é hoje o principal lançador de novos nomes, quando não, talentos na moda brasileira, principalmente no eixo Rio-São Paulo. Foram necessários 10 anos para o evento que era tido como underground literalmente ascender à um quase que mainstream, mas mesmo assim, sem perder seu gostinho pelo alternativo e - desculpe a repetição - underground.

 

Alguns de seus participantes iniciais já se tornaram nomes de peso na indústria da moda brasileira. Vide André Lima, Lorenzo Merlino, Mário Queiroz, Ronald Fraga, Marcelo Sommer, V.ROM, Fábia Berscek, Giselle Nasser e Karla Giroto. Outros, ainda no line-up do evento não ficam atrás, mostrando grande potencial em conseguir seu lugar ao sol. Basta olhar as constantes evoluções de marcas como Gêmeas, Gustavo Silvestre, Thiago Marcon, João Pimenta e Walério Araújo. E quando falo em evolução não me refiro apenas à questão estética, mas também a toda estrutura comercial e financeira necessária para a sobrevivência de uma marca.

 

O evento surgiu quando, em 1997, André Hidalgo começou a sentir sinais que a moda iria se tornar um dos mercados com maior potencial de crescimento no Brasil. Na época aconteciam as primeiras edições do Morumbi Fashion, e os trabalhos de Alexandre Herchcovitch e Walter Rodrigues, por exemplo, já começavam a chamar bastante atenção.

 

Porém,  ainda não havia espaço - leia-se evento - para novos talentos. Estilistas com potencial de crescimento não encontravam meios para expor seus trabalhos e serem descobertos.

 

Frequentador da noite de SP, André logo percebeu que a can underground da cidade está efervecendo com novos estilistas. “Um dia, conversando com Lorenzo Merlino e Jeziel Moraes, sugeri fazermos um evento para mostrar o trabalho deles. Eles toparam na hora. Aí, o Lorenzo chamou a Elisa Stecca, o Jeziel chamou o Martielo Toledo e eu chamei a Annelise de Salles que, por sua vez, chamou o Sommer. E lá se foram 10 anos!“, disse em entrevista de Ricardo Oliveros para o BlogView.

 

 

Lógico que, hoje, a Casa de Criadores, e principalmente, as marcas e estilistas participantes se encontram um pouco divididos entre manter-se como undergrounds, ou se tornarem marcas comerciais pertencente ao mainstream da moda. Essa dúvida e ânsia por se tornarem marcas reconhecidas no mercado, junto com a falta de recursos ($$$) encontradas pelos estilistas do evento é o que acabou contribuindo para algumas coleções bem fracas nas últimas edições do evento. Aquela coisa de almejar algo muito alto, sem ter os meios para tal, apresentado algumas falhas bem graves em acabamento e qualidade de tecido utilizado. Ou então coleções comerciais ao extremo, sem propor nada de novo, sequer interessante.

 

O que acontece é que são poucos os que percebem que é, sim, possível crescer, evoluir, sem perder esse espírito underground - se bem que acho a palavra “indie” mas apropriada para descrever essa vibe que cerca o evento e seus participantes. Walério Araújo e João Pimenta são os melhores exemplos. Ambos vêm apresentando ótimas coleções em desfile marcantes, cheios daquela energia que marcou os momentos históricos da Casa de Criadores. Sem falar nas roupas em si, que enquanto parecem mirabolantes e um pouco complicadas na passarelas, são na verdade peças bem interessantes e prontas para serem usadas na vida real.

 

 

 

 

 

 

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Depois de algumas mudanças na data do evento, começa nesta quarta-feira (28/5) mais uma edição da Casa de Criadores. Continuando a dar largada o evento, que acontece pela terceira vez no Shopping Frei Caneca, traz algumas novidades no seu line-up.

 

A primeira delas é a volta da Gêmeas, que na edição passada ficou fora do line-up oficial evento, assim como a Attention Deaf Disorder (ADD) que também ficou uma temporada sem desfilar e retorna agora com sua coleção para o verão 2009.

 

De novo tem a marca Weider Silveiro e Mark Greiner, Purpure, e o estilista André Phergom que migrou do Projeto Lab.

 

E por falar em Projeto Lab - espaço dedicado a estilistas ainda bem pequenos, começando agora sua carreira na moda - ingressam os designers João Paulo Elias, Marya Nasser, Der Metropol, Clarissa Lorenz e R. Rosner.

 

Confira aqui o line-up completo do evento:

 

Quarta-feira, 28/05/08 

 

Intervenção Tudicofusi

Gustavo Silvestre

Attention Deaf Disorder (ADD)

Diva

Rober Dognani

Walrio Arajo

 

Quinta-feira, 29/05/08

 

PROJETO LAB

Apresentação coletiva dos estilistas:

Valencio Lemes

João Paulo Elias

Tony Jr.

Marya Nasser

Der Metropol

Clarissa Lorenz

R. Rosner

 

Ptit [por Anna O., Fernanda Padin, Helosa Faria e Leonardo Negro]

Marcelu Ferraz

Athria Gomes

João Pimenta

 

Sexta-feira, 30/05/2008 

 

Gmeas [por Carol e Isadora Foes Krieger]

Purpure [ por Weider Silveiro e Mark Greiner]

Ianire Soraluze

André Phergon

Prints I Like

Ash 

 

 

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Casa de Criadores - terceiro dia

. DESFILES ., Athria Gomes, CASA DE CRIADORES, Ianire Soraluze, Ivan Aguilar, Marcelu Ferraz, P’tit, inverno 2008 3 Comments »

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E terminou ontem a 22a Casa de Criadores. Edição um tanto quanto fraca e bem sem sentido – principalmente depois de ler os textos do Oliveros. Mas esse assunto fica para o post balanço de depois. Agora vamos falar do que aconteceu no terceiro e último dia.

Quem abriu foi Athria Gomes, que desfilava suas coleções durante o Fashion Rio, no projeto Rio Moda Hype. Tempos de mudanças. Não só de cidade, como também de mulher. A mulher de Athria cresceu. Deixou de ser aquela jovem/adolescente punk e cresceu para se tornar uma mulhar glamoursa, elegante, deixando toda rebeldia punk que sempre marcou o trabalho da Athria em segundo plano.

O inverno 2008 da estilistas vem carregado de referência ao glamour hollywoodiano da década de 40, com vários vestidos – peça chave da coleção -, curtos, no joelho e longos, quase sempre com a cintura marcada. As referências punks não ficam esquecidas, aparecem na forma de mini bombas e giletes estampadas junto com outras estampas mais clássicas em tamanho maior.

Em seguida Ianire Soraluze apresentou sua coleção “Home Sweet Home”. A idéia é levar a casa para rua. Segundo a estilista passamos muito pouco tempo em casa, então porque não levar todo aconchego de casa para rua com você. Daí vêm os materiais “de casa” como as saias e vestidos bem volumosas de tecido de colcha de cama em colméia de abelha, os xadrezes que lembravam toalhas de mesa, o algodão de lençol, as saias e bermuda em tapeçaria, os looks de cobertores (déjà vu fashion) etc. Tudo numa silhueta meio anos 50, com referências ao new look. Com cintura bem marcada, as saias são bem volumosas, assim como quase todas partes de baixo, fazendo contraponto com tops mais próximos ao corpo.

Tudo muito bem executado, interessantes, com bons trabalhos de volumes, mas… Marcelo Sommer já não fez tudo isso? E muito bem feito, diga-se de passagem. Não que Ianire tenha feito com intenção de cópia, mas acabou que já vimos tudo isso e não teve aquela pegada de algo novo.

Bom acabamento, corte perfeito e proporção correta são as principais qualidades de Ivan Aguilar, estilista capixaba que apresentou uma coleção um pouco menos comercial no último dia do evento. A inspiração vem dos soldados da 2a Guerra Mundial, daí as várias referências militares. Trench coats, jaquetas e blazers vem em tons terrosos ou verdes na sua maioria, quase sempre com a cintura marcada por cintos de couro de aspecto envelhecido. O styling esperto de Thiago Ferraz também ajuda para deixar a coleção com cara mais conceitual, com peças de modelagem não tão convencional, vide as camisas mais compridas aparecendo por baixo de blazers e jaquetas.

A revelação da noite, porém, foi Marcelu Ferraz. Suas três últimas coleções pecavam em mau acabamento e má qualidade, o que diminuiu bastante nesta última coleção. Ainda foca em roupas de festa/noite, o estilista se inspira na cultura japonesa para seu inverno 2008. Quase tudo em preto, aposta em formas mais soltas num primeiro momento com vestido mais fluídos, mangas morcego. Mangas, por sinal, são ponto de destaque na coleção. Sempre bem amplas e volumosas, variam entre as soltas (morcego) e as mais estruturadas como as bufantes e presunto, fazendo referências às luminárias japoneses.

No coletivo P’tit são as estéticas do cinema noir e referências étnicas do leste europeu, Índia, Paquistão e do estilista Paul Poiret que dão o tom para coleção complicada e difícil de chegar na vida real sem passar por uma re-edição. O coletivo se sai melhor nos looks em que encontram maior equilíbrio entre formas e volumes inusitados e modelagens mais clássicas.

Ricardo Oliveros, do Fora de Moda, fez post comentando a coleção de Ivan Aguilar e já anunciando a saída do estilista do evento. Fique sabendo para onde ele vai.

Vitor Angelo Dus Infernus também já fez seu post por um jornalismo livre e negligente. Com comentários de várias pessoas sobre o último dia de Casa de Criadores.

As meninas do Oficina de Estilo não foram ao evento, mas viram tudo no showroom das marcas participantes, que acontece no Clube de Estilo. Veja aqui o que elas acharam por lá.

Casa de Criadores - segundo dia

. DESFILES ., CASA DE CRIADORES, João Pimenta, Rober Dognani, Weider Silveiro, inverno 2008 2 Comments »

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Já no line-up oficial do evento, Weider Silveiro vai para África buscar inspirações para seu inverno 2008. É de lá que vem os volumes nas golas, ombros e cavas lembrando acessórios típicos das tribos africanas, assim como o constante uso de cordas, colares e os acessórios em madeira. Outra ponto marcante no desfile é a alfaiataria, quase sempre em lã, as vezes espinha de peixe (aquela com trama que lembra uma espinha de peixe mesmo, com vários triângulozinhos).

A alfaiataria quase sempre mais rígida e estruturada faz um bom contraponto as boas blusas de jérsei, com destaques para os drapeados e os volumes nas golas. O vestidos curtos, também em jérsei acabam não agradando muito e parecendo até um pouco desconexo com todo o resto da coleção. Já a aplicação de volumes e cordas em certas roupas acabaram por desconfigurar a silhueta feminina e acentuar falta de acabamento.

Em seguida surgiu uma vontade ser Galliano no desfile da Rober Dognani. Explico: tudo começou com o cabelo e maquiagem, bem parecido aos que Galliano vem usando em seus próprio desfiles, assim como nos da Dior. Uma coisa meio Belle Epoque, sobrancelhas super delineadas, cabelos meio desarrumados. Depois os grandes laços, os volumes bubbles nas saias e os vestidos de um ombro só fazem forte referência a Dior.

Mas ainda assim, o estilo de Rober fala mais alto. O estilista continua focado e roupas de festas com um quê punk-chic. O exercício com volumes (outra constante no trabalho de Rober) também tem continuidade no inverno 2008, principalmente devido ao fato da inspiração para esta coleção ser técnicas de moulage. É daí que vem aquela sensação de coberto enrolado no corpo, criando volumes assimétricos, muitas vezes exagerados ao extremo, e os repuxados.

No fim, Rober se sai melhor quando encontra equilíbrio, sem exagerar nos volumes e sem reduzir de mais a silhueta – se os looks ultra justos já marcavam o corpo da modelo imagina o que não vai marcar numa pessoa de vida real. E são justamente essas peças e looks menos exagerados – tanto para mais quanto para menos – que devem continuar fazendo sucessor entre suas consumidoras.

Mas coube a João Pimenta (de novo) o cargo de fechar o dia – bem fraco, convenhamos – com chave de ouro. Os desfiles de João sempre contam com uma energia muito forte, com música marcante e alta, mas que não deixam você desgrudar os olhos dos modelos desfilados. Desta vez a inspiração veio de civilizações antigas dos EUA, dos índios norte americanos Navarros e dos neozelandeses Maoris.

É impressionante como João consegue variar o tema e ainda sim manter elementos típicos e recorrentes de seu trabalho, sem parecer repetitivo, sem déjà vu fashion. Estava tudo lá, as influências punks, a androgenia, a sobreposição de camadas, referências étnicas, as desconstruções e a alfaiataria re-editada.

O desfile começa com bloco de marrons, com várias sobreposições de peças, o que acaba dando bastante volume aos looks, ai vão passando para os marinhos, pretos e jeans já em silhueta mais próxima ao corpo. A coleção continua rica em detalhes com bordados, patches, brocados, aplicações de taxas. Mas o que mais se destaca é o ótimo trabalho com teares e bordados africanos.

Demorou mas chegou. Já está no ar o post Dus Infernus, de Vitor Angelo, falando sobre a imagem que cada marca está construindo sobre sua própria imagem. Tem que ler!

As meninas do Oficina de Estilo também já postaram o texto delas, falando de todos os desejos de vida real do segundo dia de Casa do Criadores. Vale a pena ler.

Oliveros, do Fora de Moda, já adianta uma reflexão sobre a Casa de Criadores, mas que na verdade vale para todos as Semanas de Moda do Brasil. Mas o melhor mesmo está no texto sobre João Pimenta, onde Oliveros explica as referências da coleção, e porque João Pimenta faz um verdadeiro streetwear. Tem também um puxão de orelha em todos nós que falamos tanto na busca de mais infromação e cultura de moda para o Brasil, mas que não conseguimos nos desligar de valores extramente internacionai. TEM QUE LER!!!

E pra terminar mais um post Dus Infernus excelente. O Inferno são os outros! 

Projeto Lab - inverno 2008

. DESFILES ., CASA DE CRIADORES, inverno 2008 7 Comments »

O segundo dia da Casa de Criadores começou com sangue novo. Mais novo ainda do que os jovens talentos que integram o line-up do evento. E vamos combinar, que muitos dos participantes nem são mais tão jovens assim, né? Só ainda não fazem parte do mainstream. Enfim, voltando ao assunto, quem abriu o dia foram os quatro integrantes do Projeto Lab – que hoje mais pareceu um desfile de formatura.

Ok, as marcas são ultra jovens, com recursos limitadíssimos, seus estilistas são super novos no mercado e é normal esperar erros e experimentação. Mas deve haver também por parte dos estilista o conhecimento de que suas roupas serão apresentadas para um público “especialista” no assunto e que, por conseqüência, vão exigir um mínimo a ser apresentado. E esse mínimo só apareceu em duas – sendo que uma bem minimamente – coleções do projeto.

André Phergon foi o primeiro a desfilar sua coleção para o inverno 2008, dando uma certa continuidade à seu estilo. O foco continua na alfaiataria e na silhueta slim sempre com uma cartela de cor mais escura. De novo o masculino se destaca sobre o feminino mais comercial, porém bem correto, com vestidos levemente mais afastados do corpo, meio 50’s e bastante transparências. Para o masculino a aposta é nos sarouels ou espécie de calça cenoura (aquelas mais largar na coxa e justas do joelho para baixo) e na camisaria, combinação até em formas e silhuetas que se repete todo o desfile.

Raquel Gaeta vem em seguida com sua coleção despretensiosa e feminina. Inspirada na obra Carol, da escritora Patrícia Highsmith, a estilista faz referência aos anos 50 marcando a cintura bem alta, deixando as saias bem amplas pregas e plissados. Raquel também traz influências dos anos 70 com as pantalonas e animal prints.

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Outra obra literária, agora “O Processo”, de Frazn Kafka, também serve de inspiração para Karen Valencio Lemes. E é na alfaiataria masculina onde a estilista encontra espaço para traduzir toda a subversão, instabilidade e aleatoriedade relatada na obra de Kafka. Descontruindo peças clássicas, alterando proporções, formas, re-localizando penses e costuras. Tudo isso contrastando com peças bem estruturadas e formas retas.

Gustavo Silvestre - inverno 2008

. DESFILES ., CASA DE CRIADORES, Gustavo Silvestre, inverno 2008 1 Comment »

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Quem fechou o primeiro dia da Casa de Criadores foi Gustavo Silvestre, como mais uma instalação ao invés de desfile. Está já é a terceira é edição que o estilista abandona as passarelas para apresentar sua coleção de forma estática. Porém, nem sempre esta é a melhor escolha. É que concordo com Oliveros “A falta de movimento, da energia retirada de uma manifestação cultural tão forte, necessitava mesmo é da passarela. Assim como Walério soube explorar a vibe do carnaval e transformar o desfile em apoteose, era exatamente isto que devia ter acontecido com os volumes, mangas elaboradas, brilhos, transparências da ótima coleção de Silvestre” – LEIA O RESTO DA CRÍTICA AQUI.

O tema escolhido por Gustavo foi o Maracatu. Diferente do manifesto de João Pimenta - que também estava cheio de referências a este movimento cultural na edição passada – o estilista re-edita elementos clássicos de tal festa para valores urbanos e glamouroso. Casamento perfeito entre os típicos bordados das vestes dos personagens do Maracatu e a especialidade de Gustvao. Aparecem nas várias túnicas com cintos e faixas marcando bem a cintura. O comprimento varia entre curtos e mais compridos (não passando do joelho), enquanto as formas amplas são uma constante. Ótimo fator para a idéia de roupa unissex que Gustavo apresentou em modelos masculinos.

Roupas masculinas? “Não, roupas femininas mas que podem ser usadas por homem”, nas palavras do próprio estilista.

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