Casa de Criadores #2

CASA DE CRIADORES, verão 2009 No Comments »

O segundo dia da Casa de Criadores começou com a apresentação dos estilistas integrantes do Projeto Lab. Para quem nunca ouviu falar o projeto é um braço da Semana de Moda dedicado a estilista ainda mais novos, que estão realmente ingressando agora com suas marcas no mercado de moda.

 

Ao todo eram 6 participantes, do qual somente dois tiveram merecido destaque, mostrando um razoável preparo para já ingressar no mercado. O primeiro, totalmente novato, o recém-formado João Paulo Elias. A inspiração veio dos trabalhos de formas orgânicas do designer holandês Joris Laarman. Daí os vestidos com recortes curvilíneos, sobreposições de tecidos em tons semelhantes.

 

O outro destaque foi da dupla de estilistas já bem experientes da Der Metropol. Luicana Campos é hoje coordenadora de produto da Maria Garcia, além de ser a responsável por toda linha de acessórios da Huis Clô e Maria Garcia. Já Mário Franciso, foi assistente de estilo de Mareu Nitschke e hoje é professor do curso de moda da Universidade Senac.

 

Apresentações a parte, ficou bem claro o quanto a experiência faz diferença. A coleção veio toda inspirada no universo folk, com base nos lenhadores. Por isso as estampas digitais de madeiras, os tecidos parecendo xadrezes parecendo colchas de retalhos e a pele de vaca que aparecia pontual mente sobre algumas peças, mas principalmente nos ótimos tênis masculinos. A dupla também se destacou pelo excelente trabalho de modelagem e construções das roupas, como na jardineira com volume arredondado no quadril, ou as calças masculinas no estilo dohti, com coxa mais larga, ajustando do joelho para baixo. Peças sempre na base de algodão indo do moletom à malhas finas e texturizadas vem tanto em versões mais simples, fáceis de chegar no consumidor final, como mais trabalhadas, com recortes e construções mais complexas, com ajustes e deslocamento de penses e cavas.

 

 

Já no line-up oficial do evento, o coletivo P’tit vem com uma abordagem mais comercial e diluída, mas nem por isso perdendo todo aquele espírito de “contar história” tão presente em suas roupas. Com apresentação menos performática, continuam os looks com modelagem mais ousada, com muitas amarrações, moulage e formas nada convencionais e também o trabalho exclusivo de garimpo de materiais e peças vintages – afinal foi por isso que a marca ficou conhecida. É o caso do vestido feito de pedaços de várias camisolas antigas, ou do vestido de patch de renda, ou ainda do vestido paetizado, com recorte de tecido florido em modelagem e forma bem desestrurada.

 

Mas agora, ao mesmo tempo, Anna O, Heloísa Faria, Leonardo Negrão mostram peças mas simples, como os conjuntos de bermuda e top na mesma padronagem, ou nas combinações de peças um pouco mais elaboradas com outras mais comerciais.

 

Para seu verão 2009 Rober Dognani pensou em cores, cores fortes como amarelo, verde, roxo, vermelho e azul. Pensou também em encurtar – e muito – as barras de seus longos vestidos dramáticos da coleção passada. Continuam, porém, os looks feitos com técnica de moulage e todos aqueles exageros de babados, laços, pregas e maxi golas.

 

 

Na passarela Rober mostra emoção com seus volumes excêntricos que ganham mais vida com as cores vibrantes. Mas na vida real deixa um grande ponto de interrogação. As formas as vezes com muita sobre de tecidos proveniente da técnica de moulage acabam se tornando muito difíceis de serem digeridas pelo consumidor final. Sem contar que todo o excesso de detalhes como babados, fuxicos e pregas parecem desviar a atenção do estilista para o look geral, mostrando algumas pequenas falhas no quesito acabamento geral.

 

 

Fazendo a ponte-aérea, a carioca Athria Gomes olha para o carnaval dos anos 30 em sua coleção. Com vários blocos que passa pelo Pierrot nas estampas de losango verde e vermelho, pela melindrosa nos looks de franja e pelos piratas nos listrados. No fim parece que a fantasia falou mais alto que as roupas em si. Salvo os looks com ares mais navy, como a saia curta branca ou a pantalona de cintura alta com abotoaduras douradas e naquelas com uma leve pegada rock anos 50, a inspiração carnavalesca ganhou ares muito literal.

 

Quem fechou o desfile foi João Pimenta que nesta coleção resolveu deixar um pouco da teatralidade de seus desfiles de lado para se focar mais na roupa em si. Não que antes elas não merecessem atenção, mas devido ao styling bem dramático ficavam meio camufladas para o olhar do consumidor final. “Se o comercial não aparece, não há desejo pela roupa”, disse o estilista.

 

Mas não adianta – e graças a Deus -, João por mais que tente não consegue deixar de mostrar uma imagem forte e bem característica do seu homem.

 

O estilista também quis se focar bastante na questão da masculinidade, deixando toda a androgenia de suas coleções passadas, quase que totalmente restritas ao make, principalmente nos cabelos à la Amy Whinehouse e nos óculos mais feminios. Um certo clima retro, principalmente dos anos 70 permeia toda a coleção mas de forma nada literal e pouco clichê.

 

 

Na verdade foi o universo do esporte que falou mais alto. Pense em esportes britânicos, como o rugby, ou em jogos medievais e seus uniformes listrados, que a imagem é bem parecida. Os tecidos, como elanca, tricoline e o próprio algodão, também já indicavam a forte tendência do sportwear, até mesmo na boa alfaiataria do estilista. Esta por sinal, vem com muitos recortes, quase sempre em proporções mais reduzidas, principalmente nos blazeres. As peças mais oversized ficam por conta das calças de cintura alta e perna bem larga, ou meio boca de sino, bem anos 70. As camisetas e blusas mais focadas nos esportes também ganham proporções bem exageradas, com ombreiras e muitos sobreposições.

Bom ver como o estilista consegue limpar o visual, deixar tudo com cara mais diluída e mais comercial, sem perder sua identidade.

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