Posts Tagged ‘João Pimenta’

E então o verão…

Wednesday, June 23rd, 2010

Eu disse que estava voltando aos pouquinhos, né? Então, a temporada de moda pode ter acabado, mas o trabalho não para. Bem pelo contrário, só vai aumentando a medida que temos que analisar toda uma nova estação, isso sem contar nos desfiles masculinos de Milão e Paris que estão rolando e nos de resort que não param de aparecer. Mas chega de enrolação. Semana passada disse que na sexta (18/06) iria subir um balanço do verão 2011 lá no FFW, mas por probleminhas técnicos só conseguimos subir hoje. Então aí vai:

british-colony-e-melk-zdaBritish Colony e Melk Z-Da verão 2011 ©Agência Fotosite

Um verão que não deixou (muitas) lembranças. É assim que ficou (ou não ficou) na memória a temporada de moda nacional que terminou no último dia 14/06. Fashion Rio e SPFW passaram sem muitas surpresas – nenhuma proporção verdadeiramente nova, nenhuma modelagem realmente diferente. O foco no produto – talvez pressão do lado comercial frente à economia aquecida – reduziu o espaço do conceito, da ousadia ou mesmo das experimentações.

As tendências foram muitas: entre as principais, o domínio dos tons caramelizados e pastel, as cores e estampas da natureza (viva os florais tropicalistas!), as rendas e materiais vazados, as transparências e texturas, os plastificados. Diversas miudezas de estilo que não valem ser esmiuçadas agora. Afinal, o mercado ainda está colocando em prática as tendências do inverno 2010, que foram desfiladas em janeiro.

maria-bonitaMaria Bonita verão 2011 ©Agência Fotosite

Agora vale olhar para um quadro um pouco maior. Olhar mais para a causa do que para as conseqüências. Para as inspirações e rumos que irão nortear a estação mais quente do ano.

Entre as principais propostas desta temporada existe um ponto em comum e muito forte: o próprio Brasil. Pode até não ser a tendência mais importante, nem a mais relevante (comercialmente), mas é, sem dúvidas, a mais interessante.

Muito além do surto patriótico que acomete a nação em tempos de Copa do Mundo, o Brasil surgiu como inspiração para alguns dos mais importantes desfiles da temporada – e o melhor de tudo, bem longe dos clichês.

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Casa de Criadores inverno 2010: 4º dia

Monday, November 30th, 2009

João Pimenta

Depois de um verão (2010) e um inverno (2009) dedicado a explorar as formas femininas adaptadas para o corpo masculino, João Pimenta decidiu que era hora de virar o tabuleiro. Segundo o próprio estilista contou ao site SPFW antes de seu desfile apresentado ontem (25/11) no Shopping Frei Caneca, a idéia era “tirar um pouco do lúdico das peças, e acrescentar um pouco de brutalidade”.

Daí veio a inspiração da Missa do Vaqueiro Nordestino, de onde saem a cartela de cor dominada por tons terrosos e as modelagens de algumas peças. Dos personagens – e principalmente de suas atitudes – saem aquela agressividade que João tanto procurava, traduzida principalmente na aparência rústica dos linhos, couros e moletons utilizados na coleção.

Já o caimento e corte dão continuidade aos fundamentos da coleção passada, onde peças puramente masculinas acabam hibridizadas com formas femininas, com destaque para os vestidos. Assim, camisetas de algodão são alongadas até virarem túnicas que lembram camisolas. Ou então vem acinturadas com a barra formando uma leve saia, como visto também em muitas das ótimas jaquetas de fechamento trazeiro. Casacos de leves referencias militares, com ombros marcados retos que dão força ao look, também ganham barras longas e fluídas ou então aquelas mini saias que se contrapõem a parte de cima mais encorpada e ajustada.

Numa verdadeira evolução da coleção passada, onde formas e cortes quase clássicos se fundem a fluidez e delicadeza das peças femininas, João dá mais um show de modelagem e manuseio têxtil. E assim, reforça seu lugar de destaque não só na Casa de Criadores como na moda masculina local, trabalhando de forma universal temáticas essencialmente brasileira.

Milena Hamaní

Em sua segunda apresentação na Casa de Criadores, a estilista de moda praia Milena Hamaní, olha para a sensualidade dos cabarés do século XX em seu inverno 2010. Daí vem as várias referências ao boudoir, como rendas, corset e também alguns dos vestidos curtinhos de saia godê e top mais ajustado.

Porém, ao trabalhar os elementos da roupa íntima de forma um tanto quanto literais – quando não clichês – acaba se perdendo entre a lingerie e o beachwear de fato que se propõe a fazer. Deixando a platéia (e consequentemente o consumidor) em dúvida quanto a natureza da peça. Boudoir e moda praia vivem se cruzando, quando a intenção e falar de uma sensualidade não óbvia e até mesmo mais sofisticada. Porém, os elementos do beachwear devem sempre falar mais alto, como acontecem em algumas poucas peças, como na seqüência de maiôs e biquínis nude rosados.

Outra boa idéia que também podia ter sido mais bem trabalhada, era as peças com detalhes em crochê. A combinação parece estranha, mas tem lá um quê de interessante. Faltou só trabalhar melhor modelagens e acabamentos para dar mais apelo as peças, principalmente para os vestidinhos que funcionam como saída de praia à la Alaïa.

Ronaldo Silvestre

Estreante na Casa de Criadores, Ronaldo Silvestre apresentou uma coleção que buscava a cada looks por uma extrema sofisticação e elegância. Seu ponto de partida é a vida de Mata Hari, uma das mulheres mais polêmicas do século XX, e o tema acaba servindo como pretexto para trabalhar algumas elementos que apareceram com considerável relevância nas coleções internacionais para o inverno 2009.

A mais marcante delas é a silhueta anos 40, repleta de referências a Dior, que aqui são responsáveis por elevarem o grau de elegância e sofisticações dos looks que vem trabalhados em tecidos nobres de tons escuros, sempre com algumas textura ou brilho. A alfaiataria aparece marcada por forte influência militar, em vestidos-blazer ou vestidos-trenchs quase que tradicionais e em boa sintonia com o que está nas lojas lá fora agora.

O problema é que ao ornamentar e almejar por tamanha sofisticação, Ronaldo acaba envelhecendo alguns do seus looks. Salvo por peças que trazem algum caráter levemente inovador, como as boas jaquetas ou blazers militares de proporções reduzidas. Sem contar que ao se focar tanto em vontades já tanto exploradas e desgastadas, ficam faltando aquele olhar para frente e busca por reais inovações.

No Hay Banda

Na última temporada, as estilistas Claudia Mine, Bruna Santini e Juliana Magro, do coletivo No Hay Banda, apresentam um interessante e promissor trabalho com pregas e drapeados. Para esta estação, prometeram continuar focadas em tais elementos, só que buscando uma atitude um pouco menos feminina, e mais agressiva e rocker.

Na prática isso implicou em investir numa cartela de cor mais escura, aproximar a silhueta do corpo, e trabalhar com volumes mais discretos, focando-se mais na construção das peças. Porém, tal exercício acabou sendo levado um pouco a sério demais, a ponto de comprometer proporções e vestibilidade das roupas. Ao aplicar costuras sinuosas, recortes assimétricos, pregas e drapes numa mesma peça, acabam exagerando na dose de informação, e muitas vezes pecando na execução.

Bom mesmo, é quando as meninas se focam em um único exercício por vez, ou dosam a quantidade de elementos num só look. Seja na moulage, nas pregas, nos recortes ou nos drapeados, é quando tais elementos se juntam de maneira bem pontual e mais pensada que as peças saltam o olhar. Como foi no vestido preto com frente toda pregueada, ou então no colete preto também com pregas, no vestido texturizado com volume assimétrico de um lado só ou na jaqueta cinza mescla toda recortada. No fim, ficou parecendo que o inverno 2010 careceu da atenção a detalhes e proporções que se mostram tão interessante neste verão.

R. Rosner

Rodrigo Rosner gosta de fazer moda festa e isso deixou bem claro no seu debut na Casa de Criadores há 2 estações. De lá para cá, veio refinando seu trabalho, eliminando excessos e adequando sua modelagem para uma clientela que apesar de tradicional, gosta de um pouco mais de informação de moda, e até mesmo uma certa ousadia.

Ousadia, que agora aprece nos decotes que apresentou em seu inverno 2010, ou então nas formas estruturadas com carreiras de paetês enfileirados que circulavam saias e tops de vestidos, emprestando a eles um ar quase sci-fi.

O ponto de partida é simples e para lá de familiar: sua avó. Com estilo sofisticado e com uma queda pelo clássicos, Rodrigo tira de seu guarda-roupa algumas bases dessa sua nova coleção. Porém, aqueles excessos de ornamentação que antes carregavam demais seus vestidos, voltam aparecer quando texturas ou tecidos brilhantes se juntam a forma ou tecidos muito pesados. E agora, algumas formas e modelagens também mostram um tanto quanto mal-resolvidas. Seja por dificultar o movimento, ou por deixarem a modelo ou cliente desconfortável por revelar tao facilmente algumas partes mais íntimas.

Não a toa são naqueles modelos de formas mais tradicionais que Rodrigo se sai melhor. Como no longo cítrico com babadinhos nas alças para marcar os ombros (bem anos 40), ou então no branco com estampa de renda – outra novidade desta coleção, que rendeu boas leggings e bodies – e até mesmo naquele looks mais extravagante, do vestido preto com aplicações de pele sintética em toda sua extensão frontal.

Urussai

Depois de duas participações na Casa de Criadores com instalações ou intervenções, a Urussai, marca de Catarina Gushiken e Mariana Dias, passou a integrar o line-up do evento. O motivo? “Porque agora atingimos uma certa maturidade em termos comerciais e de infra-estrutura que nos permite entrar na passarela”, conta Cataria.

O tema dessa coleção é a estética das tatuagens da Yakuza. Sim, a organização japonesa que até 1990 não permitia a entrada de mulheres no grupo. E são justamente essas mulheres, fortes e dominadoras, que servem de inspiração para a coleção que conta com estampas de 8 artistas diferentes aplicadas sobre camisetas de modelagem ampla, derivadas de quimonos e outras vestes tipicamente japonesas.

Texto publicado originalmente no site do SPFW.

Casa de Criadores Verão 2010 – 1º Dia

Thursday, May 28th, 2009

Começou ontem a 25a edição da Casa de Criadores (CdC), que mais uma vez dá a largada para a temporada de desfiles para o verão 2010. Quem abriu o primeiro dia de desfiles foi a estreante Urussai, marca de Catarina Gushiken, com uma “intervenção” que consistia na apresentação do teatro Kabuki, espécie de teatro tradicional do Japão, seguido do desfile em si – bem que as duas apresentações podiam ser integradas, ia ser mais interessante e menos cansativa.

Enfim, a coleção veio marcada por referências orientais, uma das principais características da Urussai, tendo seu ponto alto naquelas peças que usa tais elementos de forma nada óbvias e super mesclados com a tradição ocidental do vestir, assim como um estilo mais moderno. É o caso daquele quimono-macaquinho, de shortinhos bem curto em cetim de seda levinho, ou então do vestido branco solto, com barra mais justa e decote/gola de quimono. As estampas também merecem destaque, afinal é um dos pontos fortes da marca. Desenvolvida por oito designers diferentes sempre fazem alguma releitura de ícones japonesas.

Karin Faller verão 2010

Karin Faller verão 2010

Depois foi a vez de Karin Feller, estilista que venceu o projeto Ponto Zero na edição passada. Seu verão 2010 vem todo inspirado na “textura da cidade”, como ela mesmo contou. Da coleção passada continua aquela vontade experimentar com materiais inusitados, “transformando a matéria e brincando com sua funcionalidade”. Isso aparece de modo super claro nos colares feitos de clipes de papel que decoravam os looks de silhueta bem ampla e confortável. Camisetões bem folgados vinham em tonalidades manchadas à la tie-dye, combinados shortinhos um pouco mais estruturados com drapeados nas laterais, ou simplesmente um mais soltinhos e volumosos – a bermuda balonê masculina é super fofa.

Bem mais comercial do que na coleção passada Karin consegue dar uma sutileza geral a suas peças adicionando detalhes delicados como os laços na alça e manga de vestidos e blusinhas bem soltos, babados que chamam atenção para os ombros e drapeados mais desestruturados. Tudo de um jeito bem despojado e despretensioso, com uma boa pegada street.

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R. Rosner verão 2010

Rodrigo Rosner gosta é de moda de festa. E não só isso, sabe fazer uma boa roupa de festa sem cair em clichês ou carregar demais seus looks. Ao contrário da sua estréia no line-up oficial da CdC na edição passada, o estilista acerta ao apresentar looks com detalhes mais delicados como micro flores aplicadas sobre os vestidos, mini pregas e drapeados suaves e aplicações de pedraria. A silhueta é em sua maioria mais próxima ao corpo, quase sempre em tubinhos de tecidos mais encorpados como tafetá, com camadas mais soltinhas de seda ou organza. Mais importante ainda, é que Rodrigo parece não deixar sua ousadia de lado. Por mais que as mangas super volumosas, as caudas esvoaçantes e outros volumes e estruturas pareciam um pouco mal resolvidas, são essências para um jovem estilista, e no caso de Rosner, já se mostraram como um bom medidor de aceitação crítica.

João Pimenta verão 2010

João Pimenta verão 2010

Trazer referências e elementos femininos para o universo masculino continua sendo o objetivo de João Pimenta para o verão 2010. “A idéia é fazer um contraponto com a coleção passada”, explica o estilista. Daí que ao invés de se focar na silhueta, com looks bem estruturados, sua nova coleção vem com o foco no caimento, em peças de formas amplas e fluídas quase sempre cortadas em viés – técnica que ajudou a dar esse ar mais delicado e feminino as roupas, deixando-as mais próximas do corpo, com caimento que acabava por revelar as formas e curvas do corpo masculino.

O preto também sai de cena, dando espaço para uma cartela de cor repleta de brancos, off-whites, beges, crus e marrons, o que fez perfeito sentido com as referências caipiras que João trabalhou nessa estação. De resto, foi o estilista no seu melhor estilo. Sua alfaiataria repleta de elementos clássicos vem toda retrabalhada em tecidos naturais, quase sempre com ombros mais marcados e caimento levemente evasê. Com comprimento mais curto e um pouco mais próxima ao corpo, davam ainda mais ênfase as camisas e camisetas bem soltas em malhas de algodão bem fino que caiam esvoaçantes sobre as calças de barra mais curta, cavalo baixo e modelagem mais ajustada ao corpo.

Interessante também a evolução da coleção do desfile. Começando com peças mais simples, numa silhueta mais ampla e fluída, sem muita decoração. A medida que a cartela de cor vai escurecendo, os tecidos vão ficando mais encorpados e as decorações aumentam. Como que o homem estivesse amadurecendo, passada de looks mais despojados e confortáveis para outros de aspecto levemente mais austeros, com rendas mais marcantes, brocados e jacquards que dão um toque mais maduro ao look. E por mais que as referências femininas estejam por toda parte, João consegue deixar sua coleção super masculina, com peças indispensáveis – e algumas até que bem comerciais para os padrões da marca – para o guarda-roupa do homem atual, e até mesmo mais fácil de chegar a vida real do que a coleção passada.

Der Metropol

Der Metropol

Outra marca de moda masculina que marcou presença nesse primeiro dia da CdC foi a Der Metropol, do estilista Mario Francisco. Pensando na necessidade de proteção dos dias de hoje, o estilista tria referências medievais e dos nosso próprios recursos de segurança da atualidade para construir sua coleção com mixava elementos punks dos anos 80, com um pouco de 90. As referências, assim com alguns dos looks podem até parecer meio batidos e sem muito frescor, mas o grande destaque da coleção está em cada uma das peças.

Mario é um estilista de mão cheia. Suas peças, por mais simples que sejam, apresentam construção impecável e algum detalhe que dá a informação de moda necessária para tirar a roupa do lugar comum. Nessa coleção isso fica bem evidentes nas camisetas de modelagem um pouco mais ampla, com pregas nas costas e ombro, ou nas mangas duplas, com uma camada de tecido extra, e também nas pregas e babados que aparecem de forma pontuais em algumas peças, como referências as aberturas das armaduras medievais para melhor movimentação.

Sua alfaiataria tem corte e acabamentos super contemporâneos, com linhas e recortes assimétricos, como no preto sem mangas de com recortes frontais bem discretos. Em clara referência ao punk e também ao próprio conceito da coleção algumas ganham ombros marcados por estruturas que dão um leve volume a região, ou então com aplicação de “espinhos” de tecidos ou neoprene.

Gustavo Silvestre

Gustavo Silvestre

E quem fechou o primeiro dia de desfiles foi Gustavo Silvestre, que teve no caleidoscópio inspiração para seu verão 2010. Daí vem boa parte das estampas bem geométrica em tons de preto, coral, vermelho, laranja e amarelo. Sempre em comprimento bem curtos, Gustavo começa com vestidos em jérsei bem soltos, em branco e preto, indo aos poucos ajustando sua silhueta. Meio que indo dos anos 70 para os 80, os vestidos vão ficando cada vez mais justos a medida que os tecidos vão ficando mais encorpados e a cartela de cores vão escurecendo, até acabarem em estruturas rígidas, meio armadura com pedaços de espelhos e ombros pontudos.

Bem mais simples que suas coleções passadas, os clássicos bordados que Gustavo faz tão bem ficaram agora restritos a alguns looks escuros de forma bem pontuais e geométricas. Com peças bem fáceis de se usar a coleção desperta desejo, é super vendável, mas no final fica aquele sensação de que não vimos o melhor de Gustavo.

Fotos por Charles Naseh / Chic.com.br

Casa de Criadores – 1o. dia

Tuesday, December 9th, 2008

Quem abriu a 24a edição da Casa de Criadores foi André Phergom, da marca que leva seu nome. Em suas coleções passadas a música sempre teve papel muito forte, até mesmo quando não era inspiração declarada. Era sempre possível associar seu estilo com algum gênero musical, principalmente o rock e eletro, ainda mais no masculino, marcado por uma constante silhueta seca e cores escuras.

Charles Naseh/Chic.com.br

Para o inverno 2009 Phergom assumiu a música como referência olhando para o brit rock dos anos 80, principalmente para o vocalista do The Smiths, Morrissey. Mas parece que alguém andou lendo as críticas, já que segundo o próprio estilista “não quis fazer um rock clichê, quis fugir do óbvio”. E a maneira que encontrou para isso foi investir numa silhueta um pouco mais solta, sem aquele look batido de calça justa, jaqueta de couro e afins. Tudo bem que na passarela ainda vimos variações desses looks, vide os vários leggings combinados com camisas e ou blazers de proporções reduzidas. De qualquer forma, foi bom ver o estilista já começando a buscar novas formas e tentar sair da mesmice.

A coleção em si, não trazia grandes erros. O mix de alfaiataria com malharia pareceu uma boa saída, assim como alguns detalhes de couro, como no bom macacão masculino. Os tricôs cinzas, com algumas poucas taxas (principalmente o com gola ampla em moulage) também merecem destaque, mostrando que o estilista tem potencial, falta saber explorar e expandir seu universo.

Charles Naseh/Chic.com.br

Charles Naseh/Chic.com.br

Em seguida foi a fez das estreantes Claudia Mini, Bruna Santini e Juliana Roso, do coletivo No Hay Banda. O ponto de partida foi a canção Lili Marlene, que virou espécie de hino em plena II Guerra Mundial, cantado por ambos os eixos, para expressar a vontade de paz e de voltar para casa. Isso se traduziu num mix entre looks mais românticos com outros de referências militares, além do desafio de trabalhar com a escassez que marcou a moda no período da guerra.

Desafio este levado muito a sério em alguns casos, onde tecidos simples demais (para não dizer de baixa qualidade) ficavam um pouco desconexos da imagem de luxo decadente de filmes da década de 40, que serviram como referência. Ou então não se mostravam a melhor opção para algumas formas trabalhadas. Ainda sim, os looks em preto com bom trabalho de pregas e alguns daqueles com referências masculinas, como a calça de cintura alta com camiseta com espécie de suspensório integrado e paetizado, mostram-se como pontos altos da coleção, onde não ficam datado demais, e também mostram um bom mix de tecidos mais simples em peças mais formais e elegantes.

João Pimenta é sempre um dos desfiles mais esperados da noite. Na temporada passada, optou por um enfoque mais comercial, olhando para o universo do esporte numa de suas coleções mais vida real, mas que ainda sim mostrava um bom equilíbrio entre imagem de moda e realidade. Agora para o inverno 2009, João decide voltar a trabalhar com elementos femininos voltados para o masculino. Para isso ao invés de utilizar apenas acessórios ou tecidos, se focou nas formas de cintura e quadril que geralmente marcam as roupas femininas.

Charles Naseh/Chic.com.br

Charles Naseh/Chic.com.br

Daí vêm os casacos com penses que acentuam a cintura masculina, as saias ou anquinhas mais estruturadas na região do quadril, ou amarração com lacinhos nas costas de algumas peças e até um mini salto no sapato. Isso sem contar no uso de tecidos quase que restrito ao universo feminino, como musseline, chiffon e seda. Calças vem com quadril e coxas bem volumosas afunilando na perna, ou então em modelos dhoti um pouco mais extremados, como no bom macacão acinturado, com ziper frontal bem aparente. Já as partes de cima ficam levemente acinturadas graças as penses em casacos mais alongados que se armam na área do quadril ou então de camisetões em musseline branco com pregas e amarração nas costas, estilo roupa de hospital.

Com construção primorosa, acabamento perfeito e uma visão de alfaiataria e universo masculino privilegiada, a coleção de João pode até a ser comparada com as propostas e questionamentos já propostos por Thom Browne e Miuccia Prada (havia até uma certa semelhança estética em alguns dos looks), ainda que de modo bem pessoal, permitindo diversas interpretações. A questão que divergiu opiniões é se é realmente válido uma coleção com imagem tão forte e com tão pouco apelo para vida real. Afinal, se nem as mulheres gostam de realçar o quadril, porque os homens gostariam, não é?

Charles Naseh/Chic.com.br

Charles Naseh/Chic.com.br

A indicada para o Prêmio Moda Brasil, Ianire Soraluze também olhou para a Guerra em sua coleção. Mas agora pensando na questão da reconstrução após a destruição e como isso se relaciona com a moda. Daí lançou-se no desafio de se re-inventar numa coleção totalmente nova, com alguns elementos militares para contrapor com seu estilo mais suave e feminino – e bom apelo comercial, sem ficar forçado ou superficial. Pontos altos da coleção foram as peças em lã, tanto a pantalona e blazer desestruturado que abriram o desfile, como os tricôs acinturados, alguns com ombreiras suaves e principalmente o vestido decotado com cava mais angular no ombro.

Charles Naseh/Chic.com.br

Charles Naseh/Chic.com.br

O coletivo Tudi Cofusi parece se encontrar na velha armadilha dos jovens estilistas. Aquela coisa de mostrar um mega show na passarela, mas que acaba não comunicando nada e nem mostrando as boas peças que é possível encontrar em seus pontos de venda. Ainda assim, o inverno 2009 parece um pouco mais focado, mostrando propostas até que interessantes para passarelas (mas só lá) como o vestido sarongue masculino e ou vestido laranja de cobertor. Porém, o tema de fazer roupa com poucos recursos devido a crise, podia ter sido mais bem explorado, mixando soluções mais comerciais do que apenas mostrar habilidades estilísticas e de costura.

Essa mesma vontade de mostrar habilidades, somados a referências as vezes muito literais, é o que acaba tirando a espontaneidade da coleção de Rober Dognani. Que ele é talentoso, um bom costureiro e estilista, nós já sabemos – e suas clientes que não dispensam um bom vestido de festa também. O problema é que para passarela Rober parece tentar mostrar tudo que é capaz num mesmo look, drapeando, pregueando, decontando, tudo em excesso o que acaba parecendo forçado demais, quando não acaba prejudicando o próprio acabamento da peça.

Charles Naseh/Chic.com.br

Charles Naseh/Chic.com.br

O inverno 2009, inspirado em heroínas gregas que retiravam um seio para melhor vestir a armadura, aparece com apelo futurista nos bons vestidos curtos e justo pretos, com detalhes em couro, ou então nos mais simples apenas com ombreias arredondadas. O problema é quando Rober começa a carregar demais a mão em decorações, e deixar referências muito literais. Afinal, foram os mais simples, com detalhes pontuais que despertaram mais desejo.

Casa de Criadores #2

Friday, May 30th, 2008

O segundo dia da Casa de Criadores começou com a apresentação dos estilistas integrantes do Projeto Lab. Para quem nunca ouviu falar o projeto é um braço da Semana de Moda dedicado a estilista ainda mais novos, que estão realmente ingressando agora com suas marcas no mercado de moda.

 

Ao todo eram 6 participantes, do qual somente dois tiveram merecido destaque, mostrando um razoável preparo para já ingressar no mercado. O primeiro, totalmente novato, o recém-formado João Paulo Elias. A inspiração veio dos trabalhos de formas orgânicas do designer holandês Joris Laarman. Daí os vestidos com recortes curvilíneos, sobreposições de tecidos em tons semelhantes.

 

O outro destaque foi da dupla de estilistas já bem experientes da Der Metropol. Luicana Campos é hoje coordenadora de produto da Maria Garcia, além de ser a responsável por toda linha de acessórios da Huis Clô e Maria Garcia. Já Mário Franciso, foi assistente de estilo de Mareu Nitschke e hoje é professor do curso de moda da Universidade Senac.

 

Apresentações a parte, ficou bem claro o quanto a experiência faz diferença. A coleção veio toda inspirada no universo folk, com base nos lenhadores. Por isso as estampas digitais de madeiras, os tecidos parecendo xadrezes parecendo colchas de retalhos e a pele de vaca que aparecia pontual mente sobre algumas peças, mas principalmente nos ótimos tênis masculinos. A dupla também se destacou pelo excelente trabalho de modelagem e construções das roupas, como na jardineira com volume arredondado no quadril, ou as calças masculinas no estilo dohti, com coxa mais larga, ajustando do joelho para baixo. Peças sempre na base de algodão indo do moletom à malhas finas e texturizadas vem tanto em versões mais simples, fáceis de chegar no consumidor final, como mais trabalhadas, com recortes e construções mais complexas, com ajustes e deslocamento de penses e cavas.

 

 

Já no line-up oficial do evento, o coletivo P’tit vem com uma abordagem mais comercial e diluída, mas nem por isso perdendo todo aquele espírito de “contar história” tão presente em suas roupas. Com apresentação menos performática, continuam os looks com modelagem mais ousada, com muitas amarrações, moulage e formas nada convencionais e também o trabalho exclusivo de garimpo de materiais e peças vintages – afinal foi por isso que a marca ficou conhecida. É o caso do vestido feito de pedaços de várias camisolas antigas, ou do vestido de patch de renda, ou ainda do vestido paetizado, com recorte de tecido florido em modelagem e forma bem desestrurada.

 

Mas agora, ao mesmo tempo, Anna O, Heloísa Faria, Leonardo Negrão mostram peças mas simples, como os conjuntos de bermuda e top na mesma padronagem, ou nas combinações de peças um pouco mais elaboradas com outras mais comerciais.

 

Para seu verão 2009 Rober Dognani pensou em cores, cores fortes como amarelo, verde, roxo, vermelho e azul. Pensou também em encurtar – e muito – as barras de seus longos vestidos dramáticos da coleção passada. Continuam, porém, os looks feitos com técnica de moulage e todos aqueles exageros de babados, laços, pregas e maxi golas.

 

 

Na passarela Rober mostra emoção com seus volumes excêntricos que ganham mais vida com as cores vibrantes. Mas na vida real deixa um grande ponto de interrogação. As formas as vezes com muita sobre de tecidos proveniente da técnica de moulage acabam se tornando muito difíceis de serem digeridas pelo consumidor final. Sem contar que todo o excesso de detalhes como babados, fuxicos e pregas parecem desviar a atenção do estilista para o look geral, mostrando algumas pequenas falhas no quesito acabamento geral.

 

 

Fazendo a ponte-aérea, a carioca Athria Gomes olha para o carnaval dos anos 30 em sua coleção. Com vários blocos que passa pelo Pierrot nas estampas de losango verde e vermelho, pela melindrosa nos looks de franja e pelos piratas nos listrados. No fim parece que a fantasia falou mais alto que as roupas em si. Salvo os looks com ares mais navy, como a saia curta branca ou a pantalona de cintura alta com abotoaduras douradas e naquelas com uma leve pegada rock anos 50, a inspiração carnavalesca ganhou ares muito literal.

 

Quem fechou o desfile foi João Pimenta que nesta coleção resolveu deixar um pouco da teatralidade de seus desfiles de lado para se focar mais na roupa em si. Não que antes elas não merecessem atenção, mas devido ao styling bem dramático ficavam meio camufladas para o olhar do consumidor final. “Se o comercial não aparece, não há desejo pela roupa”, disse o estilista.

 

Mas não adianta – e graças a Deus -, João por mais que tente não consegue deixar de mostrar uma imagem forte e bem característica do seu homem.

 

O estilista também quis se focar bastante na questão da masculinidade, deixando toda a androgenia de suas coleções passadas, quase que totalmente restritas ao make, principalmente nos cabelos à la Amy Whinehouse e nos óculos mais feminios. Um certo clima retro, principalmente dos anos 70 permeia toda a coleção mas de forma nada literal e pouco clichê.

 

 

Na verdade foi o universo do esporte que falou mais alto. Pense em esportes britânicos, como o rugby, ou em jogos medievais e seus uniformes listrados, que a imagem é bem parecida. Os tecidos, como elanca, tricoline e o próprio algodão, também já indicavam a forte tendência do sportwear, até mesmo na boa alfaiataria do estilista. Esta por sinal, vem com muitos recortes, quase sempre em proporções mais reduzidas, principalmente nos blazeres. As peças mais oversized ficam por conta das calças de cintura alta e perna bem larga, ou meio boca de sino, bem anos 70. As camisetas e blusas mais focadas nos esportes também ganham proporções bem exageradas, com ombreiras e muitos sobreposições.

Bom ver como o estilista consegue limpar o visual, deixar tudo com cara mais diluída e mais comercial, sem perder sua identidade.

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