Para começar essa matéria, vamos analisar a etimologia da palavra desfile, só que em inglês. Na língua da Rainha Elizabeth, desfile = fashion show (drama!). E show em português, todo mundo bem sabe, pode ser traduzido como espetáculo, palavra que facilmente se relaciona com o teatro. E moda e teatro muitas vezes falam a mesma língua, bebem da mesma fonte, servem de inspiração um para o outro e até se utilizam de elementos dos dois universos.
Não foram poucos os estilistas que já colaboraram com figurinos de peças teatrais - em sua maioria balés ou musicais. Jean Paul Gaultier com Régine Chopinot, Christian Lacroix com a Ópera de Paris, Yohji Yamamoto com Pina Bausch e Issey Miyake com Willian Forsythe, são apenas alguns exemplos de colaborações de estilistas com o mundo do teatro e/ou da dança.
Aqui no Brasil essas parcerias são mais discretas e ainda não foram muito exploradas, talvez pela falta de recursos ($$$) da indústria teatral. Ronaldo Fraga já chegou a assinar o figurino para trabalho Grupo Corpo, além de Isabela Capeto, Samuel Cirnansck e a marca Patachou que também já trabalharam com figurinos teatrais.
Mas tudo o que vai, volta, não é mesmo? Por isso muita vezes os desfiles de moda acabam tomando proporções bem teatrais, com direito à performances e danças, para fugir daquele formato batido do simples desfilar ao som de uma música modernete.
Já vimos desfiles com danças, projeções holográficas, roupas que se transformavam, bandas, e até uma apresentação de ballet - pense em Issey Miyake, que botou os modelos como os próprios bailarinos do balé de Forsythe.
Em território nacional, Lino Villaventura, Ronaldo Fraga, Karlla Girotto e Adriano Costa talvez sejam os estilistas que mais apostaram no formato teatral para apresentar suas coleções. No exterior não resta dúvida: Alexander McQueen e Hussein Chalayan sabem como poucos explorar formas performáticas para substituir a tradicional passarela.
“Na exposição Vizinhos, que procurava evidenciar o legado de Leonilson no jovem artista, realizada na Galeria Vermelho, em São Paulo, tiveram lugar as performances de moda, sob o título Corações ex-postos. A idéia era usar a moda para restabelecer a ponte–que Leonilson tanto buscava – entre o desejo do movimento, mesmo que fugaz, e a obra de arte. A escolha dos estilistas repousou na observação de quem na moda estabeleceria um diálogo com Leonilson. A escolha recaiu sobre Karlla Girotto, Raquel Uendi, Priscilla Darolt e Adriano Costa, que de diferentes formas responderam à questão, mas que tinham pelo menos um traço comum: formação ou ligação com artes plásticas, ocupando de certa forma um“não-lugar”no mundo da moda, talvez porque cada uma das produções representa uma antítese do caráter modal, do cíclico, das tendências gramáticas tão caras ao mercado fashion”, escreveu Ricardo Oliveros para a Revista Cult.
O assunto é bem polêmico já que esbarra na eterna discussão da pergunta: moda é arte? Será que um desfile, ou melhor, a moda como linguagem, tem a capacidade de produzir imagens que revelam o espírito e vontades de determinado tempo? “Talvez isso explique porque cada vez mais galerias e museus dão espaço para as relações que ela propõe”, responde Oliveros.
E não vamos esquecer o questionamento que começa a surgir hoje sobre a importância dos desfiles. Estes acontecem duas vezes ao ano, mais ou menos a cada 6 meses, com o intuito de apresentar/divulgar para compradores e imprensa as novidades de uma coleção. Antigamente, no começo do século XX, eram apenas com os próprios desfiles que as roupas podiam ser encomendadas pelos consumidores mais ávidos e, posteriormente, pelos compradores que revenderiam as criações.
Hoje em dia já não é bem assim. Pode-se tranquilamente comprar e encomendar diversas peças de uma coleção sem assistir ao desfile. E isso graças aos showrooms. Com isso, o que era de se esperar e que de fato aconteceu durante algum tempo, foi que os desfiles assumiram a forma de performance, de show. Quem viveu nos anos 80 aqui no Brasil deve se lembrar dos mega desfiles orquestrados por Paulo Borges (hoje diretor artístico do SPFW) e o estilista Conrado Segreto. A coisa era tão artsy que inclusive tinha atrizes no lugar das modelos, caso de Deborah Block.
Daí aquela idéia de se esperar algo mais elaborado de um desfile de moda, algo que encante, fascine, como que um ato teatral, ou como um happening contemporâneo, como explica Oliveros: “Têm vários autores que defendem esta tese que é meio polêmica. Mas se considerarmos que a performance é uma linguagem que reúne várias outras em uma ação, alguns desfiles, como os supracitados, podem receber esta leitura crítica, sim. O problema é a generalização, todo desfile é uma performance? Não. Mas alguns desfiles pode ser considerados como tais? Sim.”
Texto publicado orignalmente no site do SPFW
Tags: moda, performance
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